Noutro planeta

Por Cecilia Herzog, Paisagista, especialista em Preservação Ambiental da Cidade, mestre em Urbanismo, pesquisadora em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana. Diretora da Inverde e Conselheira da Associação Amigos do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro.

Depois de passar um mês viajando pelo mundo em pesquisa sobre melhores possibilidades para a vida nas cidades chego ao Brasil e, em duas semanas tenho a impressão de ter desembarcado não em outro país, mas em outro planeta.

Como escrevi ontem, as apresentações e discussões nos eventos em que participei foram sobre como planejar e adaptar cidades que contemplem a convivência das pessoas e da natureza. Os serviços ecológicos são fundamentais para a qualidade de vida das pessoas. E não foi só em slides, não. Eu vi isso acontecendo em Freiburg, na Alemanha. A infraestrutura verde lá funciona. As águas das chuvas são infiltradas em jardins-de-chuva, biovaleta e lagoas de detenção. As áreas verdes de lazer  e circulação proporcionam recreação saudável e transporte limpo. Dá pra andar a pé e de bicicleta longe de carros, ao longo do rio e pelas ruas das cidades. A energia solar está em toda a Alemanha que visitei, e não foi pouco.

No Japão, áreas produtivas de transição entre as cidades e áreas naturais, com cultivos de alimentos, como arroz e agroflorestas para produção de móveis, são conhecidas como Satoyama.  Estão sendo introduzidas em parques no meio das cidades. Os Satoyamas são áreas híbridas: naturais com grande biodiversidade, de produção e de lazer e recreação, educação ambiental e cultural. Mantêm os hábitos milenares, pessoas de todas as idades freqüentam e se envolvem nas atividades propostas.

Já no Rio de Janeiro, as matérias das últimas semanas sobre o novo Plano Diretor da cidade e as alterações no Código Florestal me deram um choque de realidade. Parece que aqui não vai acontecer nada do que está já acontecendo no resto do planeta. A discussão é como construir mais à beira-mar. Além do PEU (Plano de Estruturação Urbano) Vargens que permite a construção em áreas alagáveis da baixada de Jacarepaguá, e da abertura do túnel da Grota Funda com a duplicação da estrada sobre o manguezal protegido pela Reserva Biológica em áreas sujeitas a inundação e deslizamentos. Provavelmente o país já detém uma tecnologia exclusiva para conter a elevação do nível do mar em nossa costa. Parece que essa mania de proteger Áreas de Preservação Permanente, como matas ciliares, encostas íngremes e topos de morro, é que atrapalha o nosso desenvolvimento. É muito melhor abrir estradas, incentivar vender mais e mais carros, construir a usina de Belo Monte não importa como, expandir a fronteira agrícola e o desmatamento sobre os ecossistemas e aqüíferos para dar lugar a mais desenvolvimento econômico a qualquer custo.

A visão de curto prazo de nossos administradores públicos e legisladores já nos colocam problemas da maior gravidade, como a péssima qualidade de vida, a poluição generalizada das águas, do ar e do solo, doenças decorrentes de vida sedentária e contaminação,o aumento da obesidade,  a perda de biodiversidade e ecossistemas que contenham encostas e evitem enchentes, só para citar alguns. Os resultados dessa miopia podem ser medidos por diversos indicadores e manchetes de jornais.

Até quando nós brasileiros iremos ficar satisfeitos só por ter um carro novo? Está na hora de pensarmos que a sociedade de consumo individualista pode se transformar na sociedade do bem-estar, onde melhor do que possuir bens é ter uma vida saudável e em comunidade, com cultura e em contato com a natureza. Vale ressaltar que no Brasil também somos parte da natureza e dependemos dela.

Sobre Cecilia Herzog
Lancei o livro CIDADES PARA TODOS: (RE)APRENDENDO A CONVIVER COM A NATUREZA em junho de 2013. Sou presidente cofundadora do Instituto INVERDE, onde atuo desde janeiro de 2009. O objetivo do INVERDE é educar, conscientizar e propor um novo paradigma de cidades sustentáveis e resilientes em harmonia com a natureza, baseado em inter e transdisciplinaridade. Durante os últimos quatro anos organizei os ciclos de palestras e mesas redondas INVERDE (com apoio da AMIGOS DO PARQUE NACIONAL DA TIJUCA no Parque Lage) sobre sustentabilidade das cidades, com palestrantes nacionais e internacionais. Organizo e dou, juntamente com Pierre-André Martin) semestralmente o curso de curta duração ‘Infraestrutura Verde para Cidades Sustentáveis’. Sou professora da PUC-Rio. Durante a assembleia durante o 1o. Congresso Mundial de Ecologia Urbana, organizado pela Society for Urban Ecology - SURE, fundamos o capítulo brasileiro do qual sou a presidente. Escrevo regularmente para o blog internacional The Nature of Cities, o qual reúne mais de 50 profissionais, pesquisadores e pessoas que de alguma forma estão ligadas à natureza nas cidades de praticamente todos os países do planeta.

3 Responses to Noutro planeta

  1. Viverde Eco disse:

    Olá Cecilia! Venho acompanhando seu trabalho e quero dar meus parabéns! Ótimo conteúdo!

    Um Grande Abraço!
    http://www.viverdeeco.com

  2. sérgio disse:

    Visitar outros continentes, outros países é sempre uma oportunidade única de observar opções de intervenção no território. Obviamente cada país tem a sua sociedade, a sua maneira de interagir no seu território, que tem sobretudo a ver com a forma como o homem respondeu e responde às acções do ambiente a que está sujeito. E cada lugar é um lugar. “Genius loci”
    Sem dúvida que ficamos espectantes e surpreendidos com as novas formas de planear viradas para um desenvolvimento sustentável mas, o planeamento e o ordenamento do território não começará em cada um de nós? mudar a sociedade e as suas mentalidades não poderá começar por aí?onde cada geração tem o dever de transmitir às novas valores cada vez mais consistentes de saber “viver em sociedade com o ambiente (a nossa casa)”.

    cumprimentos
    sérgio

    • ceciliaherzog disse:

      Justamente isso que estamos fazendo na Inverde. Estamos em busca de mudanças externas, uma vez que cada um de nós tem passado por processos pessoais de tomada de consciência sobre a importância da participação pessoal e coletiva para que mudanças positivas, transparentes e particiaptivas venham a acontecer.

      Acredito que pensar globalmente, agir localmente é o que podemos fazer. E estamos fazendo. Através de: pesquisas em todos os lugares e diversos meios, trabalhos nas comunidades locais, participação em audiências e reuniões comunitárias e palestras educativas sobre atualidades e possibilidades para um futuro melhor posssível.

      Obrigada pela sua contribuição.

      Um abraço,
      Cecilia

      se quiser receber nossos artigos entre em nosso twitter, ou mande um recado.

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