Reconstrução na Serra: Como ser rápido e eficiente?

Por Lourdes Zunino.

Consternada como todos, passei o sábado chorando. Conversei com meus primos de Friburgo para saber como estava a filha resgatada de escombros e com amiga terapeuta que ficou de quarta a sexta em Campo do Coelho socorrendo feridos, limpando lama, corpos, cooperando.

 Vi na rede as imagens e a mobilização, endereços de coleta de donativos, o que estavam precisando. Muitas pessoas envolvidas. Separei lençóis, toalhas e roupas.

Li as críticas, vi reportagens, acusações. O mapa de risco foi feito, equipamentos instalados, o alerta foi dado, mas não houve pessoas preparadas para ativar planos de evacuação que também não saíram do papel.

Algumas cidades de Minas e São Paulo também foram afetadas por enchentes. Na Austrália e Ásia o mesmo fenômeno. São chuvas tropicais com ocorrência em intervalos de 50 a 400 anos. Cada ano em lugar diferente. Nos intervalos cada vez mais gente se expõe em encostas, leitos de rios, terrenos degradados. Desmatam, invadem, por ganância ou falta de alternativa. Não há planejamento que dê conta da expansão. Não há educação. Não há tradição de planejamento. O que existe é tensão.

Como reconstruir de forma rápida, segura, eficiente, durável?

Construir em altiplanos respeitando áreas de preservação, cursos de rios e suas dinâmicas, naturalizando o entorno e a própria construção como forma de regular o clima e estabilizar o terreno, seguindo os conceitos tão amplos de sustentabilidade, é o que me ocorre. Infraestrutura verde, biosaneamento, agroflorestas.  

Li no jornal que já há fazendas desapropriadas. Em Friburgo estão previstos 3 mil aptos em 2,6 milhões de m2. Uma prima de Friburgo viu a fazenda na TV ontem a noite (18.01) pela TV, mas não conhecia. Lhe pareceu plana e coberta de mato, fica a meia hora de carro do centro de Friburgo. Espera-se que haja troca de informações mínima com a população para que não sejam construídos apartamentos sem infraestrutura adequada. Serão cerca de 10 mil pessoas que precisam além de apartamentos, de oportunidades para recomeçar suas vidas.  

E já que vai ser feito, que seja de maneira “verde”, seguindo os preceitos da Agenda 21, com diagnóstico, planejamento, articulação e projeto, sempre participativo, assim como o monitoramento e a manutenção. Como? Mesmo e sobretudo, em situação de emergência, as pessoas se unem para agir e ajudar rapidamente.  Espera-se que o local já escolhido seja estável do ponto de vista geomorfológico, tenha ou venha a ter  acesso seguro, energia, água.

 No entanto não bastam apartamentos, os prédios precisam ter comércio, serviços. As escolas podem ter salas, auditórios e anfiteatros abertos para manifestações culturais  e de gestão comunitária. Uma escola de nível médio pode formar técnicos para a manutenção dos prédios e infraestrutura. De pedreiros ou bombeiros até algum convenio universitário para formar biólogos, geólogos, hidrólogos – os especialistas mais importantes neste momento de diagnóstico! e para estarem presentes na monitoração.  A saúde tratada pela prevenção, em espaços para ginástica, dança, yoga, natação. Salas para roda de leitura, poesia, canto, musica. Floricultura, paisagismo, hortas mandala. Muitas flores, perfumes, frutos, para amenizar a dor da perda.

Ainda com relação a saúde, deslocamentos a pé ou em ciclos serão estimulados. O ideal é que ao mesmo tempo, se estimule o transporte de passageiros e carga por ferrovia, tendência mundial de equilibrar a distribuição dos modais. Enquanto isso não acontecer, aproveitar a reconstrução das rodovias para construir vias seguras para pedestres e ciclistas, já que o novo bairro estará na periferia da cidade.

Reuso da água servida para lavagem e irrigação. Coleta da água de chuva para descarga e irrigação. Saneamento biológico, compostagem, reciclagem, redução de consumo, transformação. Energia solar para aquecimento da água e de ambientes. Lixo se transforma em insumo, a lei do poluidor pagador será respeitada, gerando recursos em pesquisa e manutenção.

Cooperativas, oficinas, bancos de microcrédito. Muitos trabalhos “verdes” podem surgir na comunidade local. Boas práticas já existem. Orientado por construtoras e especialistas, um mutirão de construção deste novo bairro, pode ter remuneração mínina, além da voluntária, e alimentação para estimular a participação.  Participar da construção da própria casa, rua, bairro, é garantir a manutenção local, o sentimento de pertencimento e carinho com o que é seu.

A terra que desceu das encostas poderá servir para aterrar platôs desde que devidamente recobertas com o substrato necessário para plantio, estabilização do solo e eventual descontaminação.  Servirá para tijolos de solo cimento?  Comercialização e recuperação dos materiais das casas destruídas deve ser encorajada, passando quando necessário, por triturador para base de novas ruas e estradas. Li relato de alguem que esperava que dessem algum dinheiro no que sobrou de sua casa, para que pudesse refazer a vida em outro lugar. Construtoras poderiam assumir este papel, recuperando o que for possível para a reconstrução.

Lembrei de palestra que assisti em dezembro passado do arquiteto inglês Bill Dunster (the ZEDfactory), especialista em desenvolvimento sustentável e construções carbono zero .  Ele mostrou casas e prédios integrados a natureza através de sistema construtivo a partir de pré-moldados de concreto.  Lembrei também das palestras sobre construção emergencial no Forum Urbano Internacional no início de 2010. Abrigos improvisados em manilhas, tubulações de grande porte em diversos materiais.

Os slides da palestra do Bill mostram diversas propostas. São construções integradas, vegetadas, sombreadas com painéis de energia solar.  São também altamente tecnológicas. Fiquei imaginando como soluções para diminuir a poluição na Inglaterra e os projetos de biosaneamento da Ong brasileira OIA[1] no Haiti, poderiam ser aplicados na situação de emergência da serra.

Seguem algumas imagens da palestra, infelizmente com pouca definição. Podem servir de inspiração para soluções modulares, rápidas, mais duráveis e eficientes.

Conceito condomínio casa tubo

Outro conceito muito interessante foi proposto recentemente pelo arquiteto chileno Alejandro Aravena, do escritório Elemental. Ele se propôs a entregar apartamentos com 50 m2 para habitação de interesse social, mas com laje bem maior para que o próprio morador possa interferir em melhorias[2].

Inspirada em suas idéias e em proposta do arquiteto Jorge Figueiredo, veterano ativista do Sindicato dos Arquitetos do Rio de janeiro, propomos módulos de apartamentos organizados a partir de escadas / hortas com composteiras próximas a porta da cozinha. A serem entregues com sala e um quarto, mas que podem se expandir para até 3 quartos ou salas comerciais. As varandas são intercaladas para ampliar as possibilidades de exposição ao sol de inverno, servindo de solários, lazer ou secagem de roupas. Podem ter jardineiras com trepadeiras para sombreamento onde adequado. Coberturas, terraços com uso comum. Coleta de água pluvial, iluminação e ventilação natural adaptada ao local.

O custo do m2 pode ser igual ou menor do que condomínios do PAC. Se os futuros moradores gostarem, participando da ação, poderá ser muito mais em conta a médio prazo, sobretudo se estimular novos planejamentos, ao invés de novas ocupações.

Proposta modular para habitação de interesse social, concurso Morar Carioca. Arquitetos Jorge Figueiredo e Lourdes Zunino.

3 Responses to Reconstrução na Serra: Como ser rápido e eficiente?

  1. Andréa Vasconcellos disse:

    São de iniciativas como está que estamos precisando.
    Parabéns pelo artigo!

    • Lourdes Rosa disse:

      Obrigado Andréa.

      Agora estamos elaborando um documento com propostas técnicas para a reconstrução. Vamos ver se conseguimos fazer chegar as mãos do secretário de obras. Se quiser colaborar entre em contato.

      Abçs

      Lourdes Zunino

      • Andréa Vasconcellos disse:

        Oi, Lourdes.
        Seria possível nós marcarmos de nos encontrar?
        No momento estou escrevendo minha dissertação de mestrado sobre infraestrutura verde e após o ocorrido na Região Serrana, decidi fazer meu estudo de caso da mesma em algum recorte da própria região. Moro no Rio de Janeiro, estou concluindo meu mestrado pela PUC-Rio e já tive a oportunidade de me encontrar com a Cecília por duas vezes. Seria muito interessante para mim poder participar de alguma forma na proposta de vocês. Como não tenho o seu contato pessoal, vou deixar aqui o meu email para que você possa entrar em contato comigo:
        andreavasconcellos.arq@gmail.com
        Muito obrigada,
        Andréa.

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