Desconexão horizontal e vertical

Por Cecilia Herzog, Paisagista, especialista em Preservação Ambiental da Cidade, mestre em Urbanismo, pesquisadora em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana. Diretora da Inverde e Conselheira da Associação Amigos do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro.

Nessa segunda década do século XXI o tema é conexão. Conexão das pessoas entre si, com a natureza, com a sua cultura, com a sua paisagem e sua cidade. Conexão entre fragmentos de florestas para conservar a biodiversidade. A conexão não é só virtual, o movimento é para que seja real. Aconteça em espaços urbanos vivos, verdes, arborizados, belos e saudáveis com ar limpo.

No entanto, aqui no Rio de Janeiro os tomadores de decisão estão desconectados horizontalmente do movimento de grande parte das cidades do planeta, que busca se conectar com suas bases naturais (geobiofísicas) e sociais (seus moradores). E verticalmente: desconectados do suporte do qual a cidade e seus habitantes dependem para viver: geológico, hidrológico e biológico. 

A cada dia fica mais evidente essa desconexão total. É só ler os jornais. Para que ouvir técnicos da própria prefeitura? Para que ouvir os cientistas que pesquisam nossos morros e rios? Para que ouvir a população? Audiências públicas transparentes e participativas atrapalham os planos do governo. Alguns têm essa mania de questionar, de perguntar por que, quem vai se beneficiar com isso, quais as consequências futuras, que cidade vamos deixar para nossos netos e bisnetos. Como será a temperatura da cidade com menos florestas ainda? Qual a estabilidade dessas casas que serão construídas nas encostas? E nas baixadas alagáveis? Quais as perdas que virão?

Cidades antenadas com o presente e de olho no futuro discutem, pesquisam, implantam novas soluções para ver o que vai dar certo, de modo a se adaptar e amenizar as conseqüências causadas pelas mudanças climáticas. Aqui, nossos administradores pensam em como ocupar mais. Em tempos de cidades compactas sustentáveis, pensam e promovem a expansão urbana (agora de forma ordenada, formal – sob a orientação do Plano Diretor).

Subida do nível do mar? Não aqui. Vamos liberar as baixadas alagadas e áreas alagáveis para o mercado imobiliário nas Vargens. Vamos abrir um túnel sob o Parque Estadual da Pedra Branca que sai sobre o manguezal protegido pela Reserva Arqueológica e Biológica de Guaratiba. A estrada será duplicada sobre esse ecossistema que é um patrimônio natural que deveria ser preservado a todo custo, não apenas para as próximas gerações, mas para essa mesmo. O manguezal presta serviços ecológicos insubstituíveis. Quando irão acontecer as audiências públicas? Quem vai fazer um Estudo de Impacto Ambiental condizente com o último reduto desse ecossistema tão precioso? O que foi feito é raso, estava arquivado na biblioteca da antiga Feema, para quem quiser dar uma olhada. Alguém foi lá na área ver as conseqüências da chuva de abril? Deveriam ir conversar com os moradores mais antigos, iriam pensar melhor em liberar a área para mais loteamentos.

Não tenham dúvidas novas tragédias virão. Quem vai assinar os atestados dos óbitos que certamente irão ocorrer serão os tomadores de decisão de hoje. Vamos fazer um esforço de memória e anotar os nomes dos responsáveis por esses novos assaltos aos nossos ecossistemas que prestam serviços ecológicos vitais e insubstituíveis. Perguntem ao prefeito de Durban o que está fazendo pela sua cidade. Ou ao da cidade do México, ou de várias outras que compõem o Conselho Mundial de Prefeitos para as Mudanças Climáticas. Eles estão administrando suas cidades com responsabilidade em busca de soluções para problemas que já está acontecendo e que seguramente só irão se agravar.

Cecilia Polacow Herzog

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Noutro planeta

Por Cecilia Herzog, Paisagista, especialista em Preservação Ambiental da Cidade, mestre em Urbanismo, pesquisadora em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana. Diretora da Inverde e Conselheira da Associação Amigos do Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro.

Depois de passar um mês viajando pelo mundo em pesquisa sobre melhores possibilidades para a vida nas cidades chego ao Brasil e, em duas semanas tenho a impressão de ter desembarcado não em outro país, mas em outro planeta.

Como escrevi ontem, as apresentações e discussões nos eventos em que participei foram sobre como planejar e adaptar cidades que contemplem a convivência das pessoas e da natureza. Os serviços ecológicos são fundamentais para a qualidade de vida das pessoas. E não foi só em slides, não. Eu vi isso acontecendo em Freiburg, na Alemanha. A infraestrutura verde lá funciona. As águas das chuvas são infiltradas em jardins-de-chuva, biovaleta e lagoas de detenção. As áreas verdes de lazer  e circulação proporcionam recreação saudável e transporte limpo. Dá pra andar a pé e de bicicleta longe de carros, ao longo do rio e pelas ruas das cidades. A energia solar está em toda a Alemanha que visitei, e não foi pouco.

No Japão, áreas produtivas de transição entre as cidades e áreas naturais, com cultivos de alimentos, como arroz e agroflorestas para produção de móveis, são conhecidas como Satoyama.  Estão sendo introduzidas em parques no meio das cidades. Os Satoyamas são áreas híbridas: naturais com grande biodiversidade, de produção e de lazer e recreação, educação ambiental e cultural. Mantêm os hábitos milenares, pessoas de todas as idades freqüentam e se envolvem nas atividades propostas.

Já no Rio de Janeiro, as matérias das últimas semanas sobre o novo Plano Diretor da cidade e as alterações no Código Florestal me deram um choque de realidade. Parece que aqui não vai acontecer nada do que está já acontecendo no resto do planeta. A discussão é como construir mais à beira-mar. Além do PEU (Plano de Estruturação Urbano) Vargens que permite a construção em áreas alagáveis da baixada de Jacarepaguá, e da abertura do túnel da Grota Funda com a duplicação da estrada sobre o manguezal protegido pela Reserva Biológica em áreas sujeitas a inundação e deslizamentos. Provavelmente o país já detém uma tecnologia exclusiva para conter a elevação do nível do mar em nossa costa. Parece que essa mania de proteger Áreas de Preservação Permanente, como matas ciliares, encostas íngremes e topos de morro, é que atrapalha o nosso desenvolvimento. É muito melhor abrir estradas, incentivar vender mais e mais carros, construir a usina de Belo Monte não importa como, expandir a fronteira agrícola e o desmatamento sobre os ecossistemas e aqüíferos para dar lugar a mais desenvolvimento econômico a qualquer custo.

A visão de curto prazo de nossos administradores públicos e legisladores já nos colocam problemas da maior gravidade, como a péssima qualidade de vida, a poluição generalizada das águas, do ar e do solo, doenças decorrentes de vida sedentária e contaminação,o aumento da obesidade,  a perda de biodiversidade e ecossistemas que contenham encostas e evitem enchentes, só para citar alguns. Os resultados dessa miopia podem ser medidos por diversos indicadores e manchetes de jornais.

Até quando nós brasileiros iremos ficar satisfeitos só por ter um carro novo? Está na hora de pensarmos que a sociedade de consumo individualista pode se transformar na sociedade do bem-estar, onde melhor do que possuir bens é ter uma vida saudável e em comunidade, com cultura e em contato com a natureza. Vale ressaltar que no Brasil também somos parte da natureza e dependemos dela.

De galho em galho

Postado por Daniela Kussama. Artigo escrito por Gilberto Dimenstein, do Aprendiz

Ipê-roxo (Tabebuia sp) - Pacaembu - foto de Juliana Gatti

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A designer Juliana Gatti anda pelas ruas, seguida por um grupo de curiosos interessados em conhecer as árvores da cidade de São Paulo. Vistos ao longe, eles parecem apenas fazer um passeio turístico. Mas esse é um novo tipo de turismo.

Nessas caminhadas, ela testa uma nova profissão, ainda não ensinada nas faculdades: guia de árvores num centro urbano.

Essa experiência profissional é uma volta à infância e à adolescência, quando Juliana passava quase todas as férias no sítio de seu avô em Tietê, cidade do interior de São Paulo. “Para mim, bastava ficar sentada debaixo das árvores brincando.”

Conseguia até reproduzir um pouco dessa sensação fora das férias. Estudava numa escola (Santa Marcelina) em Pinheiros, onde havia um bosque. Era onde ela gostava de ficar lendo, sentada na terra.

Seguiu a carreira de designer, na qual já fez de tudo um pouco: cenografia, móveis, jóias, cartazes, vinhetas para televisão e até roupas. Também chegou a promover eventos.

Flores de cerejeira-do-japão / sakura / Prunus serrulata - foto Luciano Ogura

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Foi, entretanto, no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), onde trabalhou na análise de madeiras, que despertou sua curiosidade por conhecer as árvores de que se originava o material que chegava às suas mãos. “Percebi, então, que não conhecia as árvores da minha própria cidade.”

Percebeu também que quase ninguém conhecia o mínimo da flora paulistana. Resolveu, então, redesenhar sua carreira.

Juliana montou um grupo com um arquiteto, uma paisagista e uma bióloga para formatar os passeios, convidando crianças, adolescentes e pessoas da terceira idade a integrá-lo. Criaram, então, o projeto Árvores Vivas. Escolas e, mais recentemente, unidades do Sesc começaram a chamá-la. Na próxima semana, em companhia de seus alunos, ela vai fazer um reconhecimento da região em torno do Sesc Consolação, onde há um esforço comunitário para plantar árvores.

As caminhadas se converteram num projeto digital. Durante todo o trajeto, são tiradas fotos das árvores tanto pelos alunos como pelos monitores. As centenas de fotos das árvores estão sendo inseridas em mapas na internet. Montou-se um mapa das árvores, facilmente localizáveis pelo computador. “Descobrimos que poderíamos compartilhar nossas caminhadas.”

Juliana ainda não sabe se vai conseguir manter a sustentabilidade do projeto, mas, pelo menos, está gostando -e muito- do que vem fazendo. “Enfim, acho que descobri minha paixão.” Antes, sentia-se confusa profissionalmente e “pulando de galho em galho”.

Conseguiu trazer para seu trabalho um pouco do sítio de seu avô. Com a diferença de que agora as férias não precisam acabar.

Veja mais fotos em: Mapa das Árvores

Fonte: Envolverde

Copa 2014: welcome to Congo!

Por Eduardo Barra, é arquiteto paisagista, ex-presidente (2005-2008) da ABAP – Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas.

 
 Estádio do Engenhão, Rio de Janeiro. Foto Nelson Kon    
De 21 a 23 de outubro, a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap) sediará no Rio de Janeiro o 46º Congresso da International Federation of Landscape Architects (Ifla), trazendo como tema central Infraestrutura Verde: Paisagens de Alto Desempenho. O encontro cai como uma luva nesse momento de comemoração diante da dobradinha Copa 2014-Olimpíadas 2016, uma vez que cerca de 600 profissionais de todo o mundo estarão reunidos para discutir questões como planejamento da paisagem e dos sistemas de áreas verdes das cidades, implantação de obras com respeito ao meio ambiente e aos recursos naturais, e inserção dos arquitetos paisagistas nas equipes multidisciplinares que pensarão as intervenções urbanas dos próximos anos, tendo como premissa a incansável busca da sustentabilidade e do alinhamento aos mais eficientes parâmetros de aproveitamento das potencialidades locais.

Para a Copa de 2014, não desejamos mais estádios-OVNIs pousados em tecidos urbanos conflituosos, verdadeiros alienígenas alienados de questões elementares de planejamento urbano, ambiental, de transporte de massa e de compatibilidade com o entorno. A preocupação pode soar exagerada, mas ainda é preciso tocar no assunto, já que os estádios projetados para várias capitais brasileiras continuam sendo apresentados como objetos autistas, totalmente desvinculados da realidade envolvente. Não queremos mais hotéis e acomodações das delegações assentadas sobre áreas de proteção permanente dos cursos d’água. Pretendemos ter aeroportos operando de acordo com suas capacidades de segurança, com conforto para os usuários e voos pontuais. Contamos com estradas asfaltadas e sinalizadas, e cidades livres de esgoto a céu aberto, famílias sob viadutos e assaltantes desenvoltos, já que as questões sociais, de saneamento básico e de segurança pública estarão equacionadas ou, pelo menos, encaminhadas.

Nesses próximos anos, sonhamos com uma atuação governamental – e da sociedade em geral – pautada pelo planejamento. Planejamento dos investimentos, das ações e das próprias cidades, nos seus aspectos funcionais, sociais, ambientais e paisagísticos. Planejamento em sua essência semântica e em profundidade “pressálica”. E, no contexto de ações integradas e ponderadas, os arquitetos paisagistas têm muito a contribuir, pois não se admitem mais cidades sem planejamento criterioso de seus sistemas de parques e áreas verdes em geral, sem praças, parques e ruas que possam ser efetivamente utilizados pela população. Não se tolera mais a transformação dos rios em calhas de convergência de todo o lixo urbano, da garrafa PET ao sofá. Não se entendem mais os vazios urbanos como espaços vazios de significado e de função na organização das vizinhanças. Não faz mais sentido o desperdício de áreas significativas pela falta de saber o que fazer com elas. Não se quer mais espaços públicos que não se mostrem sustentáveis e participantes do equilíbrio ambiental local. Não se admite mais o entorno das grandes edificações – como estádios de futebol – como um enorme “nada”, que não contribua para a transição harmônica entre a imponência e a atratividade da obra e a escala do bairro em que se situa.

   
 

Adequação do Estádio Beira Rio, Porto Alegre. Hype Arquitetos. Fonte: Portal Copa 2014 <www.copa2014.org.br/galeria-de-fotos/17/FOTOS+DA+FUTURA+ARENA+DO+BEIRA+RIO.html>
Projeto Cidade da Copa, Recife. Comitê do Recife 2014. Fonte: Portal Copa 2014 <www.copa2014.org.br/galeria-de-fotos/51/PROJETO+CIDADE+DA+COPA+++RECIFE.html>

   
Não podemos deixar que a euforia nos contamine com a impressão de que a única “saída” para o Brasil são as competições esportivas e que, portanto, o que importa é garantir boas instalações esportivas, à revelia de todas as outras questões envolvidas. Esse raciocínio transamazônico não se aplica mais na democracia do novo século. As possibilidades de bem-aventurança não podem nos dopar a ponto de esquecermos que nada mudou em 2007 com os Jogos Pan-Americanos – comprovadamente, os mais caros de toda a história do evento.Com o Pan, gastamos de 4 a 8 vezes (o dado oscila de acordo com a fonte) além do previsto, e o legado para a cidade do Rio de Janeiro foi pífio: um estádio alugado a preço de banana podre para um clube de futebol falido, uma arena olímpica concedida por décadas para uma empresa de eventos, e um parque aquático entregue de bandeja para o COB, estratégia adotada pela prefeitura para se livrar de seus elevadíssimos custos de manutenção. Metas de melhoria de transporte público, de despoluição de rios e lagoas e de ampliação dos sistemas de saneamento foram simplesmente ignoradas, sem que os órgãos internacionais tivessem tempo de nos punir com a transferência dos Jogos para outro local.

Teve também a estapafúrdia tentativa de utilizar o Pan como pretexto para construir garagens para barcos e atracadouros na Marina da Glória, devidamente acompanhados de centro de convenções e shopping center, ambientes, como se sabe, imprescindíveis para a prática do atletismo. Por sorte, entidades que congregam paisagistas, arquitetos, órgãos de defesa do patrimônio, advogados, ambientalistas, jornalistas e cidadãos das mais diversas procedências e formações se opuseram ferrenhamente ao projeto e conseguiram embargar as obras.

Por último, não se pode deixar de citar os tristes blocos de arquitetura “soviética” construídos na região do Autódromo, empilhados sem nenhum respeito às questões ambientais ou aos seres humanos condenados a ocupá-los posteriormente. Tudo isso regado a inexistência de licitações, denúncias de favorecimentos, superfaturamentos e algumas das maracutaias mais típicas do país. A situação tornou-se tão esquisita que o presidente da república, vaiado com tal perseverança na abertura da competição, foi convidado a se esquivar de discursar.

Para as Olimpíadas de 2016 no Rio, já se fala na retomada das obras na Marina da Glória, agora capitaneadas por Eike Batista, o novo salvador (?) de plantão, que tenciona injetar quarenta milhões de reais na enseada para “adequá-la ao padrão olímpico”, sem parecer compreender que aquele ambiente já se encontra perfeitamente adequado ao padrão urbanístico carioca. Como não se joga futebol com barcos, imaginamos que esse cartão-postal brasileiro venha a ser poupado pela Copa, e talvez valha a pena deixar o assunto para outro fórum. Mas não invalida a abordagem de tudo isso, na expectativa de que o passado recente sirva de lição. Realmente, o Congo não merece tal comparação!

O presente artigo foi publicado originalmente em www.copa2014.org.br.

   
     
     

Fonte: Vitruvius

FOTOS da IFLA World Congress 2009

IFLA 2009

MAIS FOTOS e conheça o nosso projeto que apresentamos no congresso: “RIO + VERDE”, acesse a página aqui

CARTA VERDE: Participe!!!!!!!!!!

Carta Verde

Envie sua resposta por gentileza para:

inverde.mail@gmail.com

Muito obrigado,

Equipe IN VERDE

Vamos despavimentar!

Uma iniciativa original:

Cartaz Depave Cartaz Depave 

http://depave.org/blog/

Despavimentar as áreas com concreto ou asfalto desnecessário para criar jardins.

Assista ao vídeo de uma intervenção: http://www.streetfilms.org/archives/depaving-day/

É interessante ver como essa iniciativa tende a reforçar os tecidos sociais do bairro.