Opinião Inverde

Thomas Elmqvist, Braulio Souza Dias (CBD) e Kobie Brand (ICLEI), no lançamento oficial do CBO 1 em Hyderabad.

Thomas Elmqvist, Braulio Souza Dias (CBD) e Kobie Brand (ICLEI), no lnaçamento oficial do CBO 1 em Hyderabad.

CIDADES E BIODIVERSIDADE: MAIS QUE EVENTOS UMA NECESSIDADE URGENTE

Este mês de outubro tive a oportunidade de participar de dois eventos internacionais de peso que aconteceram na Índia. O primeiro encontro foi a terceira edição da Conferência Internacional URBIO 2012 – Urban Biodiversity and Design, de 8 a 12 em Mumbai. O Segundo foi o Cities for Life, em Hyderabad durante a CoP11, nos dias 15 e 16.

O Urbio é uma rede mundial de pesquisadores que nasceu na Alemanha, em Erfurt em 2008 com o intuito de reunir pesquisadores e apresentar os trabalhos em áreas que trazem a biodiversidade urbana para o centro da cena mundial. Antecedeu a CoP de Bonn do mesmo ano, que debateu urgentes questões relativas à biodiversidade, essa rede de vida da qual fazemos parte e dependemos para viver enquanto espécie humana.

Dois anos depois, o URBIO 2010 foi realizado em Nagoya, em conferência preparatória para a CoP 10. As cidades começaram a entrar no cenário mundial, através desse e outros movimentos, como os encabeçados pelo CBD , pelo Centro de Resiliência de Estocolmo , o ICLEI (veja artigo do Russell Galt em http://www.thenatureofcities.com/author/russellgalt/ onde detalha o desenvolvimento desse processo mundial).

Esse foi meu terceiro URBIO, onde tenho apresentado os resultados de minhas pesquisas aqui no Rio de Janeiro. Fiquei feliz por encontrar o Yuri Rocha da Geografia da USP. Foi o primeiro conterrâneo a apresentar trabalho e participar efetivamente da conferência. A troca de conhecimentos e experiências, o cultivo de conexões internacionais e nacionais fazem parte desses eventos, onde uns aprendem com os outros e buscam soluções que possam ser desenvolvidas e adaptadas às diferentes realidades locais. O Comitê do URBIO é internacional, mas falta representação de países latino-americanos. Precisamos ser mais proativos nessa área de pesquisa, de fato entrar com tudo para conhecer e valorizar a biodiversidade nas cidades e os seus serviços ecossistêmicos.
Esse ano os temas fora:
1. Vulnerabilidade dos ecossistemas urbanos e da biodiversidade e seu manejo.
2. O papel d biodiversidade urbana e os ecossistemas na mitigação das mudanças climáticas.
3. Ferramentas e indicadores para medir sustentabilidade urbana.
4. O papel da Infraestrutura Verde e do Projeto.
5. O papel de mecanismos inovadores de financiamento para a conservação da biodiversidade e da mitigação adaptação às mudanças climáticas.
6. Conexões entre urbanização, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
7. Relações entre rural-urbano

O Urbio foi organizado pela Prof. Haripryia Gundimeda, no Indian Institute of Technology of Bombay (IITB), em Mumbai. É uma universidade localizada ao norte da cidade, em área extremamente arborizada, ao longo do Lago Powai. Era um prazer caminhar por suas ruas e vielas a qualquer hora do dia, pois mesmo com o calor local, o ambiente estava sempre ultra aagradável – graças à BIODIVERSIDADE LOCAL! Os patronos da conferência foram o brasileiro Secretário Executivo do CBD: Bráulio F. de Souza Dias, e o Diretor do IITB, além de ter o apoio do Ministério do Ambiente e Florestas.

Foram mais de 250 participantes de países de todos os continentes. Os palestrantes convidados foram Pavan Sukhdev (líder do importantíssimo estudo – The Economics of Ecosystems and Biodiversity –TEEB, do qual Haripryia Gundimeda participou); Glenn Stewart, da Nova Zelândia; Thomas Elmqvist, do Centro de Resiliência de Estocolmo; Madhusudan Katti, da Universidade da Califórnia, em Fresno; Mark Hostetler, da Universidade da Florida em Gainesville. Para maiores informações confira no site: http://www.hss.iitb.ac.in/urbio2012/

No Cities for Life, durante a CoP 11 em Hyderabad, foi a vez das cidades mostrarem o que estão fazendo. Prefeitos, representantes, pesquisadores participaram de sessões que trataram de inúmeros temas. Um dos mais importantes, para mim pessoalmente, foi o lançamento oficial da primeira parte do Cities and Biodiversity Outlook – CBO 1, que trata dos planos e ações que cidades de todo o mundo têm implementado (Foto). O volume específico sobre a Índia teve uma tremenda repercussão e foi reimpresso do dia para a noite para atender à demanda das cidades indianas, que buscam novos caminhos rumo à sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida, além de contribuir para melhorar a biodiversidade e mitigar/adaptar para enfrentar os desafios das mudanças climáticas.

Foi ótimo ver Curitiba, Paraná, São Paulo estado e capital, e o estado de Goiás presentes. No entanto, as cidades brasileiras precisam participar em massa e ativamente desse movimento em busca de sustentabilidade e resiliência com a maior urgência. E tive o prazer de representar o INVERDE, a convite do Centro de Resiliência de Estocolmo, pois estou colaborando na segunda parte do CBO1, a científica que deverá ser lançada no início de 2013.

Voltei com muita energia e conhecimento. Com isso, espero poder contribuir para a melhoria de nossas cidades, com a conservação, melhoria e reintrodução de biodiversidade em todas as áreas possíveis. Precisamos mudar o paradigma urbano imediatamente, dar valor ao que é mais importante: a VIDA EM TODAS AS SUAS FORMAS. Só assim, chegaremos a cidades com índices de qualidade de vida altos com pessoas felizes.
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CBD – Convention on BioDiversity – fruto das negociações da Rio 92.- http://www.cbd.int/
Stockholm Resilience Center – http://www.stockholmresilience.org/
ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade http://www.iclei.org/index.php?id=579

Nota: fotos dos eventos estão disponíveis no facebook do INVERDE.

Cecilia Herzog
Rio de Janeiro, 23 de outubro de 2012.

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Conectando as Magníficas Paisagens do Rio de Janeiro

A UNESCO elegeu a cidade do Rio de Janeiro como Patrimônio Cultural da Mundial, mas a natureza urbana não é uma prioridade para os tomadores de decisão.

Por Cecilia Polacow Herzog, paisagista ecológica, especialista em Preservação Ambiental das Cidades e mestre em Urbanismo, peloPROURB-FAU-UFRJ. Pesquisa sobre infraestrutura verde e ecologia urbana; adaptação de cidades para que se tornem resilientes aos desafios causados pelas mudanças climáticas, assim como para a sua sustentabilidade no longo prazo. Com artigos publicados e participação em congressos e seminários no Brasil e exterior.

Fonte: The Nature of Cities

As paisagens da cidade do Rio de Janeiro, uma cidade com 6, 3 milhões de habitantes, são realmente impressionantes e únicas. É o resultado de cinco séculos de interações entre o homem e a natureza. Na semana passada a UNESCO elegeu parte da cidade como Patrimônio Cultural da Mundial.

É muito significativo que a maioria das imagens premiadas tenha os maciços cobertos por Mata Atlântica com alta biodiversidade que se regenerou dos impactos causados por séculos de exploração de recursos naturais e de práticas de agricultura que tinham eliminado a cobertura vegetal nativa (http://whc.unesco.org/en/list/1100/ visitado em 07.05.2012). Na verdade as florestas estão fragmentadas, cercadas por densa ocupação urbana e sob pressão de expansão que repete os mesmo enganos feitos no passado. As áreas urbanizadas ocupam prioritariamente as terras mais baixas, onde lagoas oceânicas e brejos foram aterrados com o desmonte de muitos morros. O Parque do Flamengo (um dos locais eleitos) é um enorme aterro com 1,2 Km², onde o paisagista Roberto Burle Marx, reconhecido mundialmente, foi o responsável pelos magníficos jardins.

View from the Tijuca National Park, Christ the Redeemer (left) and Sugar Loaf (far center): reforested hills and the city. Photo by Cecilia Herzog.

No maciço da Tijuca, onde se situa o Cristo Redentor que olha sobre a cidade, plantações de café substituíram as florestas e depois foram abandonadas deixando uma paisagem seca coberta por gramíneas. No século XIX suas encostas foram parcialmente replantadas para restaurar as fontes de água, com a regeneração natural que ocorreu em vastas áreas dos dois maiores maciços da cidade: Tijuca e Pedra Branca. Ambos se tornaram áreas protegidas. O Parque Nacional da Tijuca é um dos locais eleitos pela UNESCO. Nos últimos 25 anos, o bem sucedido programa da Secretaria do Meio Ambiente “Mutirão Reflorestamento”, efetivamente replantou árvores com intuito de conter deslizamentos, muitos próximos a favelas. Trata-se de um programa sócio-ecológico porque emprega e capacita moradores das comunidades locais para o plantio e monitoramente, que acabam se tornando guardiões da floresta.

View from the favela (slum) Santa Marta, with formal city in the lower areas. Christ the Redeemer in the right side. The city has high contrasts of forests and dense urbanized areas. Photo by Cecilia Herzog.

O Verde se Submete ao Cinza

Apesar da natureza estar quase sempre presente em nossas belas vistas, as áreas urbanizadas são altamente impermeáveis e cinzas, especialmente na Zona Norte onde não há quase nenhum remanescente de área verde, nem mesmo praças públicas. A cidade tem ambientes extremamente diversificados, com florestas luxuriantes e belos parques contrastando com ruas áridas, quentes e barulhentas onde a maioria da população vive. A maior parte do tempo faz muito calor. Por exemplo, hoje é inverno e a temperatura no meio do dia é de 29°C. Moro perto da floresta, onde é bastante agradável com muitas árvores, pássaros e insetos. Espécies nativas e exóticas invasoras estão presentes e deveriam ser permanentemente manejadas. A biodiversidade abunda especialmente perto dos remanescentes dos ecossistemas florestais. Na verdade, se deixar as janelas abertas de manhã macacos-prego (Cebus apella) entram no meu apartamento. Muitos moradores os alimentam, portanto retornam atrás de comida fácil e não apropriada para eles. Ao mesmo tempo, se eu descer um quarteirão, o engarrafamento é constante, as temperaturas são mais elevadas e as árvores das ruas estão velhas, sob intensa pressão em situações inadequadas, muitas estão morrendo e não estão sendo repostas.

As pessoas valorizam os morros com as florestas e as praias principalmente para recreação, para caminhar, andar de bicicleta ou apenas para contemplar. Não estou certa de como reconhecem e valorizam os serviços ecossistêmicos (ou ambientais, como são mais conhecidos) prestados pelas florestas e pelas árvores urbanas. Existe uma enorme oportunidade para pesquisar sobre ecologia urbana no Brasil, mas ainda há não educação formal nos campos de ecologia urbana e planejamento urbano/regional da paisagem. Biodiversidade urbana e as relações pessoas-natureza também ainda não são preocupações presentes na maioria das cidades brasileira, onde nos últimos 20 anos shopping centers e jardins cosméticos com tendências globalizadas localizados em condomínios fechados têm se tornado as áreas de lazer de grande parte das cidades, substituindo os espaços públicos abertos onde o encontro com diversidade social acontece.

Natureza Urbana não é uma prioridade para os tomadores de decisão do Rio de Janeiro

Para os tomadores de decisões do Rio de Janeiro a natureza urbana não é uma prioridade. Existe uma falta de compreensão do papel da biodiversidade para a qualidade de vida em uma cidade saudável. As áreas urbanizadas estão sujeitas a enchentes e deslizamentos devido às mudanças históricas do uso do solo e da cobertura vegetal. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos irão ocorrer nos próximos anos e estão levando a uma rápida expansão urbana que segue os mesmos padrões de transformação dos remanescentes de áreas alagáveis localizados nas baixadas de Jacarepaguá e Guaratiba. Áreas alagadas estão sendo aterradas para dar lugar a estradas (para carros e BRT’s) e para o processo especulativo do mercado imobiliário. O último remanescente de manguezal legalmente protegido (Reserva Biológica de Guaratiba) está sob ameaça de desaparecer pelo excesso de salinidade, devido à nova estrada que foi construída com técnicas tradicionais de engenharia que interferem nos fluxos hidrológicos, que estão causando enchentes mais freqüentes e recorrentes nas áreas residenciais do outro lado da estrada, segundo seus moradores. Outras estradas estão sendo projetadas e construídas sem o devido entendimento da ecologia das paisagens, e seus processos e fluxos, com a eliminação da biodiversidade e alteração na dinâmica das águas.

Aerial view of Jacarepaguá lowlands: Modernist urbanization based on car transportation, gated communities and shopping malls. Parks along the riparian corridors designed by Fernando Chacel. There is an opportunity for the Green Corridors plan to protect and enhance nature-human interaction for more sustainable and resilient urban landscapes. Photo: courtesy of Carvalho Hosken S.A.

Planejando Corredores Verdes

Por outro lado a Secretaria do Meio Ambiente da Cidade (SMAC) está trabalhando em um novo plano de Corredores Verdes para reconectar os fragmentos florestais e tentar conter danos ecológicos irreversíveis nas áreas de expansão urbana. Celso Junius, coordenador do Mosaico Carioca, junto com 20 especialista de 8 departamentos da cidade constituíram um Grupo de Trabalho que desenvolveu a proposta inicial para os Corredores Verdes (disponível emhttp://mosaico-carioca.blogspot.com.br/search?updated-max=2012-05-23T22:41:00-03:00&max-results=3). A Secretaria do Meio Ambiente fez um excelente trabalho com o mapeamento dos remanescentes de ecossistemas de Mata Atlântica da cidade e de disponibilizá-los amplamente na internet, onde é possível emitir relatórios de acordo com os diversos interesses (http://sigfloresta.rio.rj.gov.br/ viewed 07.05.2012). O “Sigfloresta” é uma ferramenta importante para monitorar de forma efetiva a cobertura vegetal e está sendo usada para desenvolver o plano dos Corredores Verdes.

Green Corridors proposal connecting Tijuca, Pedra Branca and Gericinó massifs. City Zones: (1) Central; (2) South; (3) North; (4) Jacarepaguá watershed – Olympic Green Corridor; (5) Guaratiba watershed; (6) West. Most of the UNESCO Cultural Heritage Landscape is in zone 2, except the Tijuca National Park that separates the city. The Jacaperaguá watershed is delimited in red. Image adapted from Mosaico Carioca – Corredores Verdes – SMAC-RJ.

Projeto que Mimetiza a Natureza nas Cidades

O INVERDE está colaborando de forma voluntária, para desenvolver mais detalhadamente o plano de infraestrutura verde, focando inicialmente na baixada de Jacarepaguá. A bacia hidrográfica local é vulnerável à elevação do nível do mar, com a maior parte de suas áreas não tendo mais do que 1 metro acima do nível do mar atual. As áreas alagáveis e as áreas baixas estão sendo aterradas e os seus rios e córregos retificados e canalizados pelo sistema de macrodrenagem, que também é do século XX, quando se tinha a pretensão de controlar as forças da natureza.

Pierre Martin, paisagista formado na França (sócio do escritório Embya ) e eu estamos comprometidos a contribuir para incrementar o relatório final dos “Corredores Verdes Olímpicos”, os quais irão conectar os fragmentos protegidos pelos maciços da Pedra Branca e da Tijuca através da Baixada de Jacarepaguá. O objetivo é aprofundar e ilustrar as propostas na escala da bacia hidrográfica e local para uma melhor compreensão do imenso potencial que existe ao se mudar para o novo paradigma sócio-ecológico que mimetiza a natureza na cidade, e de planejar a paisagem urbana para que tenha alto desempenho em diversas funções: para as águas, a biodiversidade e as pessoas.

Ilustração de infraestrutura verde urbana, um novo paradigma para conciliar a múltiplas funões: via, mobilidade limpa (bicicletas e pedestres), biodiversidade e águas. Ilustração Embya Paisagens e Ecossistemas, Rio de Janeiro.

Nós do INVERDE, também acreditamos que educação e conscientização das pessoas é fundamental para que possamos obter suporte para a proposta. Nós promovemos e gravamos uma palestra aberta ao público de maio de 2012, a qual em breve estará disponível no Youtube. Nós também coorganizamos um seminário com a Secretaria do Meio Ambiente da Cidade e o Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro durante a Rio+20. Foi um evento oficial focado em especialistas e cientistas para trabalhar em conjunto para aprimorar o plano com base em ciência. Estamos todos comprometidos a dar andamento a esse plano de forma contínua, com mais pesquisas em ecologia urbana para melhor compreender os processos e fluxos abióticos e bióticos, bem como as relações sócio-ecológicas. A idéia não é fazer uma “maquiagem verde” (greenwashing) para a expansão urbana, mas mudar para um novo processo de planejamento transdisciplinar e para desenvolver métodos de projeto que incorporem conhecimentos científicos sócio-ecológicos.

Áreas sujeitas a inundação, vulneráveis à elevação do nível do mar Fonte: Gusmão, P.P. et al., Rio Próximos 100 anos, 2008.

Aterro na Baixada de Jacarepaguá. Photo by Celso Junius.

Rio Sangrador em Jacarepaguá sendo canalizado: contramão da visão ecológica de convivência com a natureza. Método de engenharia higienista antiquada, que pretende controlar a natureza e se livrar das águas. Foto: Gisela Santana.

Fernando Chacel

Existem exemplos locais de restauração ecológica que foram projetados por Fernando Chacel, o paisagista pioneiro com uma visão sistêmica. Ele planejou e projetou parques “estado-da-arte” ao longo das lagoas de Jacarepaguá, a baixada que sofre pressão de expansão urbana onde se localizou a Rio+20. Ele começou a projetar a recuperação dos corredores marginais das lagoas na década de 1980 até ficar doente em 2009 (infelizmente, faleceu no ano passado). Ele recompôs paisagens degradadas, reintroduzindo com grande beleza ecossistemas nativos e respeitando a sua fitosociologia. Ele trabalhou com equipes multidisciplinares.

Seu legado deve ser reconhecido e servir de inspiração para os novos profissionais: ele desenvolveu a teoria da “ecogênese”, onde foi aprender com a natureza para restaurar e proteger os manguezais, restingas e florestas paludosas de baixada. Seu livro “Landscape Architecture and Ecogenesis” deveria estar disponível em todas as escolas brasileiras que ensinam sobre o tema.

Parque da Penísula projetado por Fernando Chacel, no Rio de Janeiro. Foto: Cecilia Herzog

O Potencial Verde do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro tem um enorme potencial para ser uma das cidades mais verdes do mundo, não apenas em mitigação de gases efeito estufa e em coleta e disposição de resíduos sólidos (dois alvos prioritários dessa administração).

A infraestrutura verde na escala urbana é espetacular e deveria ser preservada e aprimorada através da conexão dos remanescentes florestais, para que possam fazer a troca de material genético de fauna e flora, além de oferecer mobilidade multimodal, sistêmica, limpa, confortável e segura para as pessoas, principalmente para pedestres e bicicletas.

É urgente que os tomadores de decisões tenham uma real compreensão do papel da biodiversidade urbana para comunidades saudáveis, seguras, sustentáveis e resilientes. A natureza urbana pode oferecer inúmeros serviços ecossistêmicos onde as pessoas vivem, trabalham e se divertem: ao longo das ruas, em canais renaturalizados, em tetos e quintais, em parques e praças projetados para ter alto desempenho sócio-ecológico com plantio intensivo de árvores nativas (não palmeiras!).

Publicado originalmente em inglês e português no blog coletivo The Nature of Cities, em 10.07.2012

http://www.thenatureofcities.com/

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Reflexões sobre a Rio+20

Foram duas semanas intensas e o resultado que pude tirar de tudo que participei foi que nós temos que resolver as questões mais prementes nas cidades. Afinal, mais da metade das pessoas do planeta moram nelas, e no Brasil o percentual sobe para quase 85%. A pegada ecológica maior vem das cidades e do que seus moradores fazem. O futuro está em cidades diferentes da cidade industrial, baseada em crescimento do consumo desenfreado. Cidades que considerem as pessoas e a natureza em primeiro lugar. Cidades que podem ter economias sustentadas por trabalhos voltados para fazer as pessoas felizes, e não apenas com direito a se endividar para comprar mais e mais para manter a roda dessa economia num eixo que está nos levando a um beco sem saída. Do jeito que estamos indo não vai ter ar para respirar, água para beber e comida saudável para comer – aliás, em muitos lugares já não tem, inclusive no Rio de Janeiro. As cidades irão continuar apagando incêndios, ou melhor, pagando os custos de enchentes e deslizamentos, irão perder infraestruturas caras e imóveis que estão sendo construídos em áreas sujeitas à subida do nível do mar. O calor vai ser cada vez mais insuportável e iremos consumir mais e mais energia para nos refrigerarmos. Lembrando que nossa energia limpa viaja milhares de quilômetros para chegar até nossas cidades, e ainda precisam de enormes áreas represadas que mudam a ecologia dos rios e de toda a região de seu entorno.

O grande ganho da Rio+20 foi a mobilização social e a tomada de consciência por um número enorme de pessoas que é preciso mudar. Precisamos conviver com a natureza, pois dela dependemos, fazemos parte e estamos sujeitos às suas mudanças de forma inexorável. Se mudar para melhor, teremos vidas melhores. Se mudar para pior (e é o que está acontecendo), podemos estar rumando para o fim da civilização que nós humanos construímos. Podemos perder todas as coisas boas que inventamos, todos os confortos que adquirimos, a saúde e longevidade obtidas (de forma excludente, pois muitos estão fora dessa festa). Na Rio+20 a equidade social e o respeito à multiplicidade cultural permeou grande parte dos eventos e manifestações. Viva a diferença! Precisamos de diversidade em tudo: social, cultural e biológica e até econômica. Não dá para ganhar dinheiro com dinheiro, alavancar sem produzir para vidas melhores. A crise está aí, e creio mesmo que se não houver uma mudança de valores ela só irá crescer.

Finalmente a sociedade do bem-estar entrou na agenda mundial. Mas, o que é bem-estar? Para uns é ir ao shopping e comprar, é uma satisfação passageira e ilusória, mas não deixa de ser um “bem-estar”. Isso mantém a máquina do consumo rodando, a propaganda e a mídia são essenciais nesse processo perverso. Mas, pode ser diferente? A sociedade da colaboração está nascendo? Será isso possível? Com tantas guerras por poder e recursos naturais fica difícil acreditar que poderá ocorrer em escala global. Mas, em escala local é possível. Podemos nos juntar para termos cidades melhores, mais humanas e sustentáveis ambiental, social, cultural e economicamente. Onde o apoio interpessoal e a distribuição de recursos sejam mais justos, e a concentração não leve a um poder municipal que escute apenas os anseios imediatos de minorias privilegiadas.

Podemos construir cidades de baixo para cima, com a mobilização social engajada e consciente das urgências do presente. Podemos fechar os ciclos e consumir localmente, aproveitar os resíduos que são insumos e não lixo. Podemos diminuir as entradas e saídas de energia e matéria. Podemos proteger nossas águas e produzir nossa comida. Precisamos priorizar a arborização urbana que trazem ganhos reais em qualidade de vida.

Não temos mais tempos a perder. Precisamos construir um novo futuro, e começar agora mudando os hábitos individuais e cobrando políticas melhores que favoreçam a maioria. Para essa cidade sustentável e resiliente é urgente termos pensamento sistêmico e a real compreensão do que é resiliência, e de como construí-la para enfrentar os desafios atuais. Isso não só é possível, como está sendo feito em inúmeras cidades em diversos continentes. Precisamos entrar nessa corrida por Cidades+Verdes de verdade, onde a natureza e a biodiversidade urbana prestam serviços ecossistêmicos onde as pessoas estão.

Cecilia Polacow Herzog
Presidente do INVERDE – Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana
Rio de Janeiro, 25 de junho de 2012

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Biodiversidade urbana já! Precisamos nos reconectar com a natureza.  

No dia 22 de maio se comemorou em silêncio uma data que deveria ter a maior visibilidade: o dia da celebração da vida, da BIODIVERSIDADE da qual nós fazemos parte e dela dependemos para viver. O que se viu em manchetes de jornais vai na contramão da preservação de nossa espécie: o país procura levantar as contas através de artifícios fiscais que incentivam a entrada de mais carros nas nossas cidades. Com isso o governo procura resolver questões de curtíssimo prazo para evitar que os efeitos da crise internacional apareçam por aqui nesse momento. A abordagem, como sempre é pontual, míope. Falta visão sistêmica e pensamento para construção de uma sociedade sustentável e resiliente que funcione no longo prazo. Somos cada vez mais vulneráveis e dependentes de exploração de recursos naturais que estão em processo de esgotamento e extinção. Estamos cada vez mais distantes das grandes transformações necessárias para que a sociedade migre para uma economia realmente verde, ecológica, que possa se desenvolver de forma socialmente justa e ambientalmente sustentável. Continuamos na “política econômica do pau-brasil”, onde a extração de nossos recursos naturais é o eixo que move a economia.

A venda de carros é a ponta do iceberg de problemas estruturais muito mais profundos e arraigados em nossa cultura econômica de dependência de uma indústria que privilegia o rodoviarismo, transporte individual e poluente, que tem três desdobramentos: (a) livra o Estado da responsabilidade de prover transportes de massa eficazes; (b) leva à imobilidade individualista, onde cada cidadão se encontra preso em seu veículo durante longas e improdutivas horas do dia, e ainda são levados a crer que por possuírem veículos possuem liberdade de ir e vir; (c) por fim, estimula o espraiamento urbano de uma sociedade de consumo intensivo sobre áreas naturais ou que poderiam estar produzindo alimentos, com sua impermeabilização e poluição (lembrando que a terra é um recurso natural finito!). Pura falácia. Não existe liberdade em se viver a maior parte do tempo preso em caixas de metal e/ou de concreto, descolados dos nossos ecossistemas de suporte de vida e ainda degradando as nossas paisagens. Essa economia de mercado competitivo e predadora de recursos naturais privilegia uma minoria e já mostrou que não deu certo, é só ver quantas pessoas estão excluídas desse processo e servem apenas para manter uma roda quadrada em rota de colisão com a biosfera e a vida.

As grandes mudanças não estão vindo dos governos centrais, de países, mas de cidades, onde governantes com visão estratégica de futuro têm conduzido transformações positivas e significativas localmente, com a melhoria da qualidade de vida para seus cidadãos. Desde bairros ecológicos espalhados por todos os continentes a megacidades como Seul, que equivale ao tamanho e complexidade da cidade de São Paulo. É possível construir cidades melhores para se viver em harmonia com a natureza. A biodiversidade urbana no Brasil ainda é um tema para poucos, que deveria ganhar ampla visibilidade, pois precisamos de seus serviços ecossistêmicos onde vivemos. Nesse afã de crescer a qualquer custo, o que as cidades têm feito é investir pesado em infraestrutura cinza – estradas, pontes, viadutos e expansão urbana desenfreada -, que promovem significativas transformações nos processos e fluxos naturais, causam a eliminação da biodiversidade e impactam os caminhos das águas com enormes impactos sócio-ambientais e prejuízos no longo prazo.

Por que não investir nas pessoas e na geração de espaços e energia sustentáveis, baseados no novo paradigma orgânico de convivência com nossa casa, o planeta Terra que mantém a rede da vida? Não é simples, mas existem casos de sucesso que podem ser inspiradores e servir de referência para dar o pontapé inicial num novo jogo onde não haverá ganhadores e perdedores. Podemos juntos sair ganhando, com melhor educação para todos e distribuição de renda que rompa com as imensas disparidades sociais, com espaços públicos que propiciem a convivência, respeito e até mesmo veneração pela natureza e pela biodiversidade da qual fazemos parte e dependemos para continuar como espécie e manter nossa civilização. Não podemos perder o sentimento de encanto pela biodiversidade, e não será preso em carros que vamos nos conectar com a natureza!

Cecilia Herzog

Presidente do INVERDE

23.05.2012

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Congresso RESILIENT CITIES 2011 (Cidades Resilientes)

Estou em Bonn participando do congresso sobre Cidades Resilientes. É o segundo ano que venho para cá representando o INVERDE apresentar trabalhos e propostas que temos desenvolvido no Brasil. Os debates são intensos, os casos interessantes e muitas vezes assustadores, pois os cenários previstos são muito difíceis e trarão problemas cada vez mais graves especialmente para as cidades. O objetivo é discutir como planejar, projetar e adaptar cidades, para que consigam enfrentar os desafios que se apresentam com as mudanças climáticas já estão ocorrendo. Inúmeros casos de desastres causados pelos efeitos da elevação da temperatura no planeta foram apresentados. É animador ver que cidades de todos os continentes estão reagindo proativamente e buscando se adiantar aos desastres que só se agravam a cada ano. Contudo, representando o Brasil éramos muito poucos e na verdade acabei não conseguindo encontrá-los, exceto pela Andrea Young que apresentou o estudo de vulnerabilidades em GIS que fez juntamente com o Carlos Nobre. Foram mais de 500 participantes, representando municípios, entidades, academia, pesquisadores, empresas  e ONG’s.

Como no ano passado, prefeitos de cidades de vários países estiveram aqui em busca de troca de experiências, e acho que 28 já assinaram um compromisso de preparar suas cidades para esses desafios que já se apresentam.

Resiliência é um termo que todos devem incorporar ao vocabulário urbano com a maior urgência, pois se refere à capacidade de enfrentar os impactos de eventos climáticos com o menor sofrimento possível. É bom frisar que mitigação se refere unicamente à redução das emissões de gases estufa, e afeta todas as fontes emissoras e todas as formas de captação de carbono.

Adaptação abrange inúmeras e complexas questões sociais e ambientais que são interligadas e fazem parte dos ecossistemas urbanos para que se construam cidades resilientes capazes de proteger os seus moradores, empresas e seu capital social, cultural ambiental econômico. Londres foi um dos casos que assisti e que participei da oficina. Os seus representantes sabem que se não fizerem mudanças imediatas poderão perder a sua posição de liderança em finanças, pois as empresas migram com a maior facilidade atualmente. Participei de conversas entre representantes de Londres e Nova York, que na maior camaradagem estão competindo para ver quem vai melhor se adaptar para não perder suas posições estratégicas.

 Cada cidade tem seus problemas e potenciais específicos, por isso é preciso amplo conhecimento científico e do contexto para que as decisões, planejamentos e projetos transformem cidades vulneráveis, em lugares resilientes e sustentáveis no longo prazo.

Tenho trabalhado para que o Rio de Janeiro acorde para o que está acontecendo, e além de produzir estudos, passe a repensar as ocupações em áreas que deveriam ser protegidas. É só olhar os mapas e ver que obras estão sendo feitas em regiões suscetíveis a inundações, e que serão agravadas com a subida do nível do mar. A combinação de fatores poderá transformar o legado em herança maldita ao combinar tempestades com ressacas (lembram a da semana passada que inundou quiosques em Copacabana? As ondas chegaram a 4 metros!).

Existem soluções que são chamadas de “hard” (engenharia tradicional, que tenta controlar as forças naturais) e a “soft” (que mimetiza a natureza, aprende com ela e busca soluções sustentáveis e que trazem qualidade de vida real para os moradores das cidades). As primeiras têm se mostrado ineficazes e são uma bomba-relógio, vide o caso do rio Mississipi e de Nova Orleans, é um desastre atrás do outro: se não é furacão e inundação e não tem muralha nem barragem, nem canalização de rio que dê jeito.

As escolhas que nossos governantes fazem hoje vão deixar suas marcas em nossa paisagem, e podem ser positivas ou não. Temos o direito e dever de participar, pois somos não apenas os usuários dessa cidade, mas os financiadores desses projetos através de impostos caríssimos que pagamos.

Cecilia Polacow Herzog

Paisagista Urbana, presidente do Instituto Inverde.

WWW.inverde.org

Para saber mais sobre os congressos, aí vão os endereços:

http://resilient-cities.iclei.org/bonn2010/ de 2010

http://resilient-cities.iclei.org/  de 2011

postado em 07.06.2011

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Potencializar esse bom momento do Rio

O Rio de Janeiro retoma seu lugar na cena nacional e ganha espaço inédito na internacional. Isso é ótimo, ou melhor, pode ser que sim ou pode ser que não. Os indicadores estão realmente mostrando tecnicamente uma cidade melhor: a sensação é de mais segurança, estabilidade e chegam investimentos de todos os lados.

Não querendo estragar a festa, é preciso não esquecer que existem perguntas ainda não respondidas sobre quais os custos culturais, ambientais e sociais que estamos pagando agora e as quais as perdas irreversíveis que estamos causando no presente. O futuro próximo nos cobrará esses prejuízos. Crescer dependendo de recursos naturais não renováveis tem um preço que será pago no futuro. Quem realmente se beneficia dessas explorações de bens que são comuns e irrecuperáveis? Manguezais, áreas alagáveis, biodiversidade nativa, paisagens histórico-culturais que dão a identidade da cidade, memórias locais, atividades autenticamente cariocas em locais onde nasceram e continuam a frutificar, só para lembrar alguns patrimônios da cidade e do Estado que estão sendo eliminados sem piedade, talvez pela falta de compreensão de sua importância.

A oportunidade é imensa de mudar o paradigma e entrar numa sociedade que visa o bem estar. Essa é a vocação dessa Cidade Maravilhosa. A construção dessa nova cidade pode ser realmente transformadora, se considerar que a convivência das pessoas com a natureza e seus processos deve ser incorporada em todos os projetos, de todas as escalas que estão em andamento. O desenvolvimento econômico sustentável no longo prazo deve ser baseado numa economia verde de fato, com foco em pesquisas e empresas de novas tecnologias, energias, transportes limpos e de massa, cultura, lazer e turismo.

É sempre bom frisar que tudo acontece nos espaços urbanos, hoje cinzas, agressivos e desagradáveis. Não é porque temos uma natureza espetacular que nos cerca, com um cenário de cinema, que a cidade onde vivemos o cotidiano seja amigável. Estamos praticamente iguais a São Paulo: engarrafamentos imensos, poluição, ruídos, ilhas de calor, prioridade para carros até mesmo em bairros tranqüilos. Tudo baseado em asfalto e concreto com uso monofuncional. Dá para ser diferente basta querer. Inúmeras cidades estão buscando esse caminho. O Rio pode ser um modelo, temos um patrimônio natural que está entremeado na malha urbana. É só estender morros abaixo, entrar pelas ruas, calçadas, canais, lagoas, quintais, tetos e muros. Está tudo para ser refeito, em vez de investir em projetos “maquiagem” onde mais cimento irá recobrir o nosso solo, pode-se alocar as verbas em projetos que de fato tragam sustentabilidade, colaborem para a construção de uma cidade resiliente, com mais qualidade de vida e saúde física, emocional e mental. O Rio e seus moradores merecem potencializar esse bom momento para deixar um futuro melhor para seus descendentes.

Cecilia P. Herzog

Rio, 7 de abril de 2011

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É preciso pensar diferente

Hoje o Japão está sob uma tremenda insegurança, apesar de ter teoricamente se preparado para enfrentar as forças naturais da melhor maneira que humanos poderiam fazer na tentativa de controlá-las. Não funcionou. A força do terremoto excedeu o que foi esperado, o tsunami varreu uma vila inteira, a usina nuclear está se desmanchando, os mortos e contaminados pelas radiações chegam a milhares de pessoas, isso sem contar os impactos econômicos e ambientais que devem ser monstruosos.

É mais uma evidência que a saída para a humanidade é a construção da resiliência através da busca por soluções que mimetizem e tirem partido da natureza. Não podemos dominar as forças naturais. É preciso que as pessoas assumam um papel de humildade e compreensão real de que o convívio é a melhor maneira, senão iremos perder sempre.

O Primeiro Ministro japonês anunciou medidas extremas de cortes de energia programados, ou seja, racionamento drástico. Imagine o que está acontecendo por lá: os prédios são altos, o frio intenso, a dependência de transportes de massa é total – a malha ferroviária é gigantesca e depende de energia nuclear. A paisagem japonesa é impressionante: ilhas comprimidas e estreitas com espaços limitados para viver e plantar entre os Alpes e o mar. Cada centímetro é aproveitado, produzem 100% do arroz que consomem, são exportadores de peixes e importam 60% do resto dos alimentos que consomem. Mesmo assim a falta de alimentos e combustíveis já é uma realidade, com filas enormes e o medo de novos tremores.

Será que agora irão pensar em aproveitar o potencial natural das marés e ventos, sem falar na solar, para gerar energia sustentável de modo a evitar futuras catástrofes? E como podem ser minimizados os efeitos dos tsunamis? Será que existiam ecossistemas como nossos manguezais que protegiam as linhas de costa? Estive em Tóquio num parque onde refizeram ecossistemas costeiros com áreas alagadas sensacionais, repletas de biodiversidade. Será que isso amenizaria as forças das ondas gigantes? Felizmente o tsunami não entrou numa área mais densamente povoada, senão não dá para imaginar o que poderia acontecer.

Acho que a reflexão para esse evento extremo é: o que pode ser feito para minimizar os riscos? Como adaptar as cidades para eventualidades extremas que podem ocorrer? E elas ocorrem (apesar de sempre acharmos que não vai ser conosco), temos visto isso com freqüência cada vez maior. Devemos trazer isso para a nossa realidade e buscar soluções que mimetizam os processos naturais, com a introdução da natureza dentro das áreas urbanas onde as pessoas estão. Preservar e conservar os ecossistemas marinhos e estuarinos existentes. Isso não apenas irá prevenir catástrofes, mas prover uma vida melhor no cotidiano da população. Os serviços ecossistêmicos que prestam são insubstituíveis. É urgente produzir alimentos dentro do perímetro urbano, em quintais, lotes vazios, varandas e tetos verdes; proteger os mananciais locais, em caso de ruptura do sistema que importa água de outras bacias hidrográficas. Enfrentar as vulnerabilidades e construir soluções que dêem resiliência no longo prazo.

É preciso levar o tema a sério, e começar já com o planejamento de uma infraestrutura verde para as cidades. Fazer projetos-piloto em cada localidade, e “aprender fazendo”, uma vez que não há receita pronta, uma fórmula milagrosa que resolve todos os problemas. O processo é dinâmico deve ser adaptado às realidades locais. Não dá mais para tampar o sol com a peneira: soluções tradicionais não resolvem, é preciso pensar diferente.

Cecilia Polacow Herzog

Paisagista ecológica

Rio, 14 de março de 2011

postado em 01.04.2011

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Revitalização ou maquiagem urbana?

Revitalização, segundo o dicionário Aurélio significa “Conjunto de medidas que visam criar novo grau de eficiência (para um) conjunto urbanístico, de uma região”.  Atualmente, esse termo tem sido banalizado em intervenções urbanas apresentadas para a cidade do Rio de Janeiro, independentemente de ser realmente uma proposta eficiente, holística e sistêmica. A eficiência de uma revitalização passa pelos seus múltiplos usos e benefícios abióticos, bióticos e sócio-culturais concretos e inovadores, de modo a que venha a ter um alto desempenho e baixo impacto na paisagem no longo prazo. Em outras palavras, uma intervenção urbana deve prestar inúmeros benefícios além de lazer e recreação. Como por exemplo: minimizar enchentes e inundações; reduzir o escoamento superficial das águas das chuvas, promovendo sua filtragem antes de alcançar os corpos d’água, com a melhoria da qualidade do ar, das águas e do solo; contribuir para a captura de carbono e a amenização das temperaturas locais; fornecer habitat para a biodiversidade; melhorar as condições de uso de ciclovias sombreadas, com mais conforto e segurança, entre inúmeros outros.

A construção contínua de uma cidade sustentável e resiliente requer, antes de tudo, que haja de fato um processo participativo, transparente, e que possa ser monitorado com ampla visibilidade, para a sociedade organizada acompanhar o seu desenvolvimento. O que é um requisito do Estatuto das Cidades.

Nada mais acertado do que propor planos e projetos em escalas de bacias hidrográficas urbanas. Contudo, o estabelecimento de comitês gestores para as diversas bacias de drenagem da cidade não basta. Na reunião realizada em 10 de fevereiro, para a instalação do comitê gestor da orla da Lagoa, foi apresentada uma proposta de intervenção em pontos específicos, com o asfaltamento de 31 mil metros quadrados de ciclovias (dado publicado em matéria do jornal O Globo, 24.02.2011). Na abertura foi enfatizada gestão integrada e a visão holística. O que não se verifica na intervenção em si, que se propõe a dar soluções pontuais a uma área de altíssima visibilidade e estima, de toda a população carioca e de seus visitantes. Nesse encontro não houve abertura para contribuições, apenas aconteceram manifestações isoladas uma vez que a reunião foi só para a apresentação de idéias já prontas para implantação. Perde a cidade e seus moradores, que serão os financiadores de mais um projeto cosmético para uma área que se encontra em estado avançado de degradação, e que não considera o tremendo potencial paisagístico-ambiental que a área possui.

É uma grande oportunidade que se apresenta para levar o conceito de revitalização ao seu potencial máximo. O Rio tem qualidades paisagísticas que devem ser aprimoradas com projetos que tornem a cidade mais sustentável e resiliente. A participação efetiva de profissionais de diferentes campos de conhecimento e representantes dos diversos grupos que compõem a sociedade local é de fundamental relevância para que os investimentos feitos revitalizem a cidade em prol de seus moradores, em primeiro lugar. E com isso, possam atrair mais visitantes e investimentos. Perde-se o foco, ao se investir 8,3 milhões em uma maquiagem urbana, ao invés de ir mais fundo em busca de soluções multifuncionais de longo prazo. A revitalização da Lagoa não deveria ser apenas tratada como orla, mas sim como bacia contribuinte da Lagoa, com um planejamento para recomposição de seus cursos d’água, revisão do sistema viário como um todo, com a priorização de transporte de massa de qualidade e alternativo não poluente seguro e confortável (bicicletas e pedestres). O objetivo deve ser devolver a cidade para as pessoas, resgatar as áreas impermeabilizadas, quentes e poluídas transformando-as em áreas de convívio: entre as pessoas e a natureza, com projetos arrojados “século XXI”, baseados em conhecimento científico.

Cecilia Polacow Herzog

Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 2011

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Carta ao querido mestre Fernando Chacel, que nos deixou ontem (06.03.2011). O seu legado  deve ser valorizado e servir de inspiração para todos os que interferem em paisagens urbanas ou rurais, em todas as escalas. É também exemplo de seriedade, ética e compromisso com seus ideais acima de tudo.

Querido Chacel,

Não há como expressar a minha gratidão e reconhecimento pela sua contribuição para as mudanças que ocorreram em minha vida. Fui estudar paisagismo para sair de escritório, de empresa. Não tinha a menor idéia da revolução que estava por vir. E foi súbita. Começou logo no primeiro encontro, quando esperava aprender o “suficiente” para fazer belos jardins. Na primeira aula você trouxe um mapa de uma bacia hidrográfica na Ilha Grande, e ensinou o que eram o caminho das águas, as declividades e tudo o mais que era preciso para começar a entender os processos e fluxos da paisagem. E daí abriu não uma porta, mas um novo universo para mim. Estava querendo mudar de vida, ia fazer 50 anos, e mudei mesmo!

Passei a ver não apenas a paisagem que me cercava de forma totalmente nova, mas a vida de um jeito que jamais imaginei. O olhar sistêmico, holístico tomou conta de meus pensamentos e buscas que se perpetuam e se alargam. Não deixo de pensar em você a cada nova descoberta. Chacel, você me ensinou a olhar, a sentir e dar valor a outras coisas. Sim, os seus valores eram novos para mim. Você me ensinou que estamos todos conectados, todos: a natureza (fauna e flora), as pessoas e a paisagem onde todos nós vivemos. Mostrou para todos nós, seus alunos, que o convívio pode ser harmonioso, que podemos aproveitar os ecossistemas nativos para viver melhor, mais felizes e saudáveis. Para isso, precisamos educar para conservá-los. Minha ignorância, como a da maioria da população era imensa, e você me deu novas luzes para iluminar o meu caminho.

A sua humildade e paixão por coisas simples são um exemplo que procuro lembrar constantemente. A sua dificuldade em enfrentar o reconhecimento de sua importância na cena nacional, foi felizmente enfrentada em outubro de 2009 na exposição de seu trabalho no Jardim Botânico e de sua apresentação para profissionais da área de todo o mundo no congresso internacional da ABAP. Você estava feliz, e mostrando apaixonado como sempre, seu trabalho. Trabalho esse que deve ser inspirador de como os profissionais da paisagem devem planejar e projetar para que tenhamos cidades melhores para se viver, junto com a natureza, valorizando os ecossistemas nativos, e os processos e fluxos naturais que ocorrem na paisagem. Fui muito privilegiada de conviver com você por um ano e meio intensamente, de aprender os fundamentos que balizam minhas atitudes e convicções atuais.

Obrigada.

Cecilia Herzog

Rio, 07.03.2011

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É hora de priorizar a infraestrutura verde

A adaptação das cidades às mudanças climáticas, para que se tornem resilientes aos impactos que já estão ocorrendo em todo o planeta, como: inundações, deslizamentos, desertificação, falta d’água, corte de suprimentos de energia e matéria etc., tem sido tema de vários congressos e seminários dos últimos dois anos. As previsões mais sombrias têm se mostrado pequenas perto da velocidade do que vem ocorrendo. O papel da biodiversidade urbana, da desimpermeabilização do solo, dos transportes alternativos de baixo impacto e de massa com combustíveis limpos, da geração de energia local e renovável, e da economia de água e energia são considerados pontos primordiais na construção de cidades sustentáveis e resilientes. Todos devem ser reunidos em um plano integrado de infraestrutura verde, que consiste numa rede de espaços permeáveis e de preferência arborizados (compreendidos os fragmentos de ecossistemas naturais) que se conectam através de ruas e rios renaturalizados, e outros potenciais corredores verdes.

Uma enxurrada de projetos, propostas e notícias sobre as transformações dos espaços urbanos do Rio de Janeiro, inunda a mídia. Porém, falta a administração municipal divulgar se está planejando e como pretende enfrentar os desafios atuais e futuros de forma sustentável. A cada chuva que para a cidade, surgem notícias sobre projetos milionários de drenagem de áreas historicamente problemáticas. O nível do mar está subindo e as imagens divulgadas de muitos projetos estão à beira d’água, como se nada fosse acontecer.  A ocupação de áreas alagáveis, encostas e ecossistemas costeiros está cobrando um alto preço da população. Áreas de produção de alimentos, fundamentais para segurança alimentar, estão sendo erradicadas. Estão sendo cometidos os mesmos erros históricos tão conhecidos de todos. Com o passar do tempo, a tendência é que as coisas fiquem mais e mais graves.

Inúmeras cidades, regiões e países estão trilhando caminhos inovadores, ao planejar e implantar projetos que consideram fatores abióticos, bióticos e antrópicos, em diversas escalas.  A infraestrutura verde já é uma realidade em muitos lugares. Investir em pesquisas e projetos que mimetizam a natureza tem dado excelentes resultados. Para isso, é preciso conhecer como os processos naturais e os fluxos que acontecem na paisagem urbana, e transformar os espaços urbanos monofuncionais em multifuncionais. Ruas, estacionamentos, telhados, canais e jardins podem oferecer inúmeros serviços ecológicos, como: coletar e drenar águas das chuvas, diminuir as ilhas de calor, reduzir temperaturas internas e o consumo de energia, limpar o ar, filtrar as águas de escoamento superficial, melhorar a saúde e a qualidade de vida da população, além de reduzir enchentes e conter deslizamentos. É uma tarefa transdisciplinar que requer a participação da comunidade com transparência.

O Rio de Janeiro tem uma oportunidade única de reverter esse processo. A incorporação dos projetos pontuais em andamento em um plano holístico de infraestrutura verde pode trazer benefícios concretos e sustentáveis para os moradores de hoje e do futuro. Não basta reduzir emissões de gases estufa. Atrair empresas de ponta requer qualidade de vida para seus funcionários. Segurança é primordial, mas qualidade de vida urbana vai além, demanda que ruas e espaços públicos sejam devolvidos à população, com múltiplas funções essenciais. Isso é possível e necessário em toda a cidade, como pode ser conferido em propostas vencedoras do Concurso Morar Carioca de urbanização de favelas promovido pelo IAB-RJ e a Prefeitura do Rio de Janeiro.  Preparar a Defesa Civil para agir em casos de calamidades é fundamental, mas não é solução sustentável no longo prazo. Não irá evitar nem mitigar os efeitos da urbanização desordenada, ou mal planejada. É hora de agir em benefício da coletividade, de planejar uma infraestrutura verde para o Rio de Janeiro. 

CECILIA POLACOW HERZOG

é paisagista urbana, mestre em Urbanismo, presidente da Inverde

www.inverde.org

Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 2011

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Força tarefa para nossas cidades

Hoje é mais um dia de luto no Estado do Rio de Janeiro e no Brasil. Por aqui uma chuva intensa mata mais que a queda de um Jumbo. A força da natureza não distingue ricos e pobres, leva todos da mesma maneira. O maior problema que nós brasileiros sofremos e que leva a essa sequência sem fim de tragédias se chama: amnésia. É só aparecer o primeiro sol e as centenas de mortos dessa primeira chuva do ano serão esquecidos. As promessas, as providências futuras idem. O Rio é conhecido pela sua alegria. Isso é fruto do gosto pelo superficial, raso, efêmero: praia, futebol e farra. Ah! Isso todo mundo gosta, se esbalda. Eu também gosto. Mas a vida não é feita só de prazer. A vida é feita de trabalho, comprometimento, construção de uma sociedade voltada para o coletivo. Senão, vivemos certos de que a tragédia virá. Só não se sabe a data e em que endereço, mas virá.

Os governantes fazem o que dá voto: sambódromo, passarela do samba, largas avenidas asfaltadas nas margens dos rios, aterros de áreas alagáveis, eliminação de áreas naturais que a população não vê utilidade, encanamento e retificação de rios que incomodam seus vizinhos, mais e mais condomínios “modernos” com áreas externas sem nenhuma função ecológica – quase tudo impermeável, grandes obras. Daí? e daí dá nisso. É bom ressaltar que as coisas estão ficando piores. As mudanças climáticas estão em ação. Que a coisa está pior e ficará cada vez mais grave não há mais dúvidas. A dúvida é só quanto pior. As previsões ficam a cada ano, mais sombrias. É só querer enxergar, os dados estão aí disponíveis para todos. Não é mais segredo.

Cidades do mundo inteiro se preparam e buscam formas de se adaptar para se tornar mais resilientes aos eventos extremos. Nos Estados Unidos, Japão, Chile e outros países que são assolados por furacões violentos, terremotos e nevascas, os projetos devem obedecer legislações severas para segurança preventiva da sua população, e minimizar as perdas econômicas e ambientais. Os planos de evacuação são efetuados com rigor. Os impostos pagos pelos moradores revertem para sua segurança. Quando acontece uma tragédia os mortos têm identidade, rosto. Suas imagens são levadas a público, a gente vê que eram pessoas e não apenas números de uma estatística mórbida.

Pode-se ver a solidariedade que corre nesses momentos, todos correm pra ajudar. Essa energia poderia ser uma força transformadora real para uma sociedade melhor, com valores mais profundos. Comprar um carrão não é uma grande conquista. Conviver com a natureza é. Nós somos parte dela e dela dependemos para sobreviver enquanto indivíduos e espécie. Precisamos de água limpa, comida e ar. E isso quem nos dá é ela, que depende de uma rede delicada e sensível para se manter. Nós humanos causamos danos tão severos que estamos ameaçando não apenas outras espécies, mas a nossa.

Não dá pra ver essas tragédias e ficar passiva, sem nenhuma ação. Precisamos nos unir para cobrar ações efetivas e eficazes de nossos governantes. Nós damos esse poder através de votos aos tomadores de decisões. Temos o dever de cobrar transparência e participação para garantir que tragédias como as dessa semana não ocorram mais. É urgente a criação de uma força tarefa transdisciplinar de longo prazo para planejar, projetar, executar e monitorar a construção e renovação de nossas cidades.

Cecilia Polacow Herzog

Paisagista urbana, presidente da Inverde

www.inverde.org

Rio de Janeiro, 13 de Janeiro de 2011

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pra lembrar que depois das chuvas de abril saiu esse artigo no Globo, em 17.04.2010, p. 7.

O Rio precisa de mais árvores

CECILIA P. HERZOG

As chuvas que paralisaram o Rio de Janeiro nessa terça-feira não se constituem exatamente num evento atípico. Elas são normais em clima tropical e impactantes devido à sua localização geográfica, entre os maciços e o mar. A urbanização alterou a dinâmica das águas, devido à canalização de rios e córregos, desmatamento das encostas e aterro de áreas alagáveis, com a impermeabilização do solo. As enchentes ocorrem mesmo com chuvas “típicas”. De fato, em eventos extremos combinados com a maré alta é quase impossível evitar danos.

Essa é uma ótima oportunidade para discutir novas alternativas de urbanização, além de revisar como se deve planejar a ocupação de novos locais. É fundamental contemplar os processos e fluxos naturais. Por exemplo, a proposta de ocupação de áreas úmidas na Baixada de Jacarepaguá deverá causar problemas, pois elas desempenham funções essenciais para a sustentabilidade da cidade, como detenção e retenção das águas, conservação da biodiversidade, manutenção da qualidade das águas, regulação do clima, entre outras.

Em áreas urbanas é necessário buscar soluções que mimetizem os processos naturais. Na última década, a infraestrutura verde tem se firmado como um novo paradigma que contribui para a sustentabilidade urbana. Tem sido implantada em inúmeros países, com resultados positivos que já podem ser medidos. Ela se constitui numa rede interconectada de espaços abertos vegetados (de preferência arborizados) que restabelece a estrutura da paisagem. A idéia é que a cidade funcione como uma esponja, que seja o mais permeável possível. Existem inúmeras possibilidades de adaptar a infraestrutura cinza existente.

A infraestrutura verde é multifuncional e oferece inúmeros benefícios, como: redução do escoamento superficial, melhoria do clima urbano; amenização das ilhas de calor; incremento no transporte alternativo; melhoria da qualidade das águas e do ar; captura de carbono; aumento da biodiversidade; melhoria de recreação e lazer e ambientes mais saudáveis, com menos estresse. Esses benefícios refletem no desenvolvimento social e econômico das cidades. A melhoria da qualidade de vida atrai empresas de ponta. Na Europa, Ásia e América do Norte existe uma competição saudável entre as cidades para ser a mais “verde”.

O Rio de Janeiro tem um desafio que é transformar a cidade maravilhosa (hoje poluída e deteriorada) numa “Cidade Verde Maravilhosa”. Agora é a hora de fazer essa escolha. Que Rio queremos? Onde e como serão feitos os investimentos previstos? A incorporação da infraestrutura verde trará benefícios ambientais, sociais e econômicos. Eventos climáticos poderão ser amenizados e até mesmo evitados. Os impactos econômicos devem ser levantados para que se possa de fato avaliar quanto custa manter as soluções tradicionais para os problemas recorrentes versus a busca por soluções inovadoras. A cidade poderá se tornar referência na América do Sul, juntamente com cidades como Curitiba e Bogotá.

CECILIA P. HERZOG é paisagista ecológica, Mestre em Urbanismo, diretora da ONG Inverde – infraestrutura verde e sustentabilidade urbana. www.inverde.org

Publicado em O Globo – Opinião, pg. 7 em 17 de abril de 2010

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O Rio não pode se perder de si mesmo

O Rio de Janeiro tem como seu maior patrimônio a sua paisagem, seus atributos naturais e culturais. Seria de enorme valia que os tomadores de decisão tivessem uma efetiva tomada de consciência desse potencial econômico quase inigualável no planeta. O Rio é uma “Cidade Lazer”, com inúmeros pontos de interesse e áreas com vocação para receber seus moradores e turistas nacionais e internacionais, além de sediar empresas do terceiro milênio.

As condições desses espaços, no entanto, estão em péssimas condições de uso, com calçadas para pedestres e pistas para ciclistas em condições de abandono. Os jardins e arborização estão degradados. Além da insegurança para que as pessoas de todas as procedências circulem livremente pela cidade (como acontece com os grandes pólos turísticos mundiais) com suas câmeras fotográficas, computadores, o simples caminhar pela cidade é uma aventura. Os cruzamentos para pedestres, na realidade são para veículos que não respeitam faixas nem sinais. Não basta dizer que existem bicicletas de aluguel, é necessário que os ciclistas possam trafegar de modo seguro e que possam apreciar o nosso patrimônio.

O movimento das ruas é o que atrai as pessoas. Shopping Centers são iguais em todos os lugares. A identidade do lugar está no que é único, seu, intransferível. Isso o Rio tem de sobra, e deveria valorizar de verdade. Não basta dar um tratamento cosmético aos lugares, dar um ar de primeiro mundo, construir torres de vidro. A natureza e a cultura local que atraem na cidade, estão se perdendo. Superfícies impermeáveis, sem alma, projetos com desenhos genéricos, é o que se vê na divulgação do que se pretende construir para os grandes eventos esportivos. Imensos investimentos que poderiam imprimir a alma carioca, sua beleza e charme parecem que vão se transformar mais uma vez em soluções arquitetônicas oportunísticas, que buscam inspiração em livros empoeirados de uma estética pseudo moderna.

 A estética contemporânea é outra, busca a natureza e cultura do lugar para se inserir na paisagem, sem agredir, pertencendo e contribuindo para a manutenção dos processos naturais, da biodiversidade, das artes populares e eruditas. Não faltam exemplos e profissionais das áreas da paisagem e da arquitetura que trabalham com essa abordagem amigável com o ambiente e o sócio-cultural onde estão inseridos. Projetos que podem estar em qualquer continente, com a mesma vegetação, material de construção, que selam o solo, interrompem os fluxos naturais e das pessoas deveriam ser evitados a qualquer custo. O preço a pagar é sempre mais caro, pois além de desconectar as águas que causam enchentes e deslizamentos, e eliminar a natureza nativa, desconectam as pessoas do seu local, de sua identidade. Tudo se perde. Inclusive os investimentos e turistas. Todos buscam mais harmonia, mais qualidade de vida, mais contato com o local. Basta dar uma olhada nas cidades mais atraentes aos negócios e ao turismo, não se perderam de si mesmas. O Rio está cada vez mais distante de tudo que é seu. Temo que agora vá se perder de vez.

Cecilia Polacow Herzog

Rio de Janeiro, 29.09.2010

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EVENTOS NO RIO DE JANEIRO E O LEGADO AMBIENTAL

Clube de Engenharia continua o debate

Hoje 24/11/2010 no auditório do Clube de Engenharia, aconteceu mais uma Mesa Redonda sobre mudanças na Perimetral.

A mesa foi composta por representantes da entidade, professores FAU/UFRJ e o vereador Eliomar Coelho. O representante pela gestão do Porto Maravilha, Sr. Luis Lobo, não compareceu.

O projeto do mono trilho foi apresentado, a discussão aberta e rapidamente se percebeu que é preciso urgente entrar com uma ação civil pública para que não se faça mal uso do dinheiro público.

A representante da Associação Brasileira de advogados do mercado imobiliário, Sra. Angela da Conceição, se prontificou a levar o assunto para análise de seus pares. Uma colega arquiteta ficou de chamar amiga do Ministério Público para a mobilização.

George Borges assessor do vereador Eliomar, explicou que acompanham o processo desde julho de 2009, quando o Porto Maravilha foi apresentado aos vereadores com belas imagens projetadas em data show. Sabe que houve um Estudo de Impacto Ambiental, aprovado sem passar por órgãos fiscalizadores, mas que não foi feito Relatório de Impacto Ambiental, o suficiente para se entrar com ação. Também foi dito que não há registro da rede de canalizações da área portuária. Que o sítio é arqueológico, portanto não pode haver escavações sem a permissão, que não foi concedida, do IPHAN.

O vereador Eliomar citou estudos da professora Raquel Rolnik constatando que nunca houve ganhos sociais com jogos no Brasil. Citou também que investimentos como os previstos para o Engenhão que passaram de 85 para 305 milhões, entre outros investimentos olímpicos.

Gostei de ouvir a argumentação de Tomaz Ribeiro, arquiteto da CAU, que também é possível transformar a perimetral em via para ônibus movido a hidrogênio, igualmente sem poluição do ar ou sonora. Já há tecnologia para isso. Muito caro? Tudo é relativo.

Projeto o futuro… e já penso que os 7 bilhões poderiam comprar uma frota de ônibus articulados movidos a hidrogênio e toda cidade seria beneficiada pela redução dos impactos. Quando estive em Berlin em 2004, essa era a pretensão, é preciso saber se já acontece.

Na Perimetral, carros só os de serviços de emergência ou segurança.

Foi dito também que a classe média não deixaria seus carros. No mundo esse processo se dá de diferentes maneiras. Em geral aumentando o custo de estacionamentos e melhorando os transportes públicos. Incentiva-se o uso do transporte ativo (a pé, de bicicleta), como forma de manter boa saúde física e até financeira. No caso do centro do Rio e área do Porto pode-se começar com o sistema de cobrança para usar todas as vias da área do centro, como é feito em Londres (cerca de 7 milhões de habitantes) e Singapura. No Rio somos quase 6 milhões. Em Londres muitos reclamaram da mudança, mas o tempo passou e a qualidade de vida no centro mudou para melhor.

Relatei que a prefeitura convidou o comitê olímpico de Londres para apresentar o projeto com que venceram em 2005, a escolha da sede para os jogos de 2012. O mote foi a sustentabilidade e escolheram terreno contaminado por antigas fabricas que abandonaram o local. Como aqui haviam linhas férreas desativadas. Estão recuperando o local pensando como será seu uso reconvertido após Olimpíadas. Novas linhas de metrô de superfície foram criadas e durante os jogos não será possível estacionar carros até uma determinada distância do Parque Olímpico. Durante as obras mesmo os diretores devem usar o transporte público.

Todos concordaram que investir em túnel submerso, estacionamento ou binário – só para carros até 2016, será investir no engarrafamento de amanhã, pois mais pessoas usarão as novas vias. Enquanto que desestimular o uso de automóveis é o que se tem feito no mundo todo. Menos emissão, poluição, mais participação da sociedade civil é o queremos como legado dos eventos esportivos. 

Rio Sustentabiliadade Olímpica

Ciclo de Workshops e Seminário de Integração 

Aproveito para contar que ontem 23/11, participei do desdobramento da apresentação dos ingleses, na Mesa Redonda do Seminário de Integração – Rio Sustentabilidade Olímpica na Firjan.

Assisti a apresentação da ARUP, empresa de engenharia com escritório em várias partes do mundo. Construíram prédios como a Opera de Sidney na Austrália, o Ninho de pássaros e o Cubo d água em Pequim.

Apresentaram a metodologia utilizada em dois novos projetos de urbanização de áreas degradadas – Treasure Island, na Baía de São Francisco e Songdo City na Coréia, próximo a Seul:

Balanço de carbono zero; Auto suficiência em água; Uso de materiais sustentáveis; Habilidade em enfrentar as mudanças climáticas, considerando cenários de 30, 50, 100 anos; Contribuição positiva para a comunidade; Sustentabilidade operacional.

Ambos os projetos utilizam biosaneamento. Tubulações para coletar águas negras e cinzas passando por processos biológicos que devolvem a água em estado de balneabilidade. Água de chuva para fins não potáveis. Todo lixo orgânico será compostado. Energia renovável, transporte hídrico.

Afirmaram que as melhores soluções são simples e que soluções urbanas integradas são muito melhores, mas mais difíceis de se implantar.

Songdo City é um empreendimento privado de US$ 36 milhões, projetado para 20 anos. A cidade já está sendo construída.

 Fonte: http://www.songdo.com

Tive a oportunidade de almoçar com o engenheiro brasileiro que trabalha em NY, responsável pela futura filial do Rio. Ele me contou que a empresa funciona em sistema de cooperativa, com o lucro anual distribuído igualmente para todos os escritórios.  Os técnicos que se aposentam fazem parte do conselho de gestão.  Um super bom exemplo de economia participativa.

PMSB Rio de Janeiro

Participei também no último dia 18, da apresentação do Plano Municipal de Saneamento do Rio de Janeiro, promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, seção RJ.

Os participantes receberam cds com o plano e fichas para contribuições.

 O documento é rico em informações da cidade, traçando um diagnóstico que abrange o histórico de sua formação, informações geopolíticas, aspectos ambientais diversos e aspectos socioeconômicos, com mapas e tabelas síntese.

Perguntei se o novo plano considerava soluções de biosaneamento e não obtive resposta. Outro participante relatou que muitas das ETEs instaladas na época do Favela Bairro, não tiveram manutenção e estão desativadas. Uma funcionária da prefeitura lembrou que este tipo de plano tem que ser submetido a consulta pública, é lei federal.

A mesa ficou de encaminhar a questão. O biosaneamento está sendo utilizado no mundo, a pequenas ETEs e ETAs abastecem seu entorno próximo, tratam as águas utilizadas, mas aqui não são regulamentadas.

Aqui recentemente, as estações de tratamento da Barra da Tijuca foram compulsóriamente desativadas, mesmo antes da chegada da tubulação de coleta da Cedae. As estações desativadas não conseguem licença ambiental nem para transformar seu uso em compostagem.

Muito triste saber que estão sucateando nossa cidade. Plano Diretor Frakstein. Muitas pessoas ainda não percebem que ao olhar só para o umbigo, estão prejudicando o futuro de seus próprios filhos e netos.

Muito bom saber que no mundo, muitas pessoas planejam para 30 à 100 anos.  Valorizam a biodiversidade, transformam resíduos em energia, tiram partido da diversidade, da proximidade, para evitar deslocamentos. Observam a natureza para buscar soluções de infraestrutura. A economia é participativa. Existe monitoramento e vontade de se adaptar a novos desafios.

Este é o legado que queremos.

Lourdes Zunino Rosa 

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IAB-RJ debate sobre a demolição da perimetral no centro do Rio

No dia 17 de novembro o IAB-RJ promoveu um debate com a apresentação de uma proposta ousada para a manutenção de toda a estrutura da perimetral, voltada para o trânsito de alta capacidade. Essa proposta visa reverter a situação atual de transporte focado em automóveis individuais. Com esse modelo, já provado insustentável e calamitoso, o Poder Público transfere a sua responsabilidade de atuar com competência, para os indivíduos – cada um se vira como pode, como diz Ricardo Esteves: “privatização da mobilidade na mão do indivíduo”. Pagamos impostos caríssimos para ficar engarrafados, seja dentro de veículos particulares, seja em ônibus que prestam um péssimo serviço (e não se apresentam como uma opção viável na atual circunstância). Outra vez citando Esteves “a função nobre do transporte é a mobilidade e acessibilidade para atrair negócios para a cidade com qualidade de vida.”

Os custos desse tempo perdido em trânsito, mais a poluição, emissão de gases de efeito estufa, com nefastas conseqüências para a saúde da população e perda de produtividade podem ser revertidos com um sistema eficaz de transportes de massa. Isso não é novidade, como bem enfatizou Ricardo Villar Gomez, vice-presidente do IAB-RJ.

Ricardo Esteves abriu com uma apresentação sobre o enorme problema que é o nosso sistema de trânsito focado nos automóveis individuais e comparou com o sistema de alta capacidade. Com imagens impactantes sobre nossa atualidade e números que comprovam que a Prefeitura precisa mudar de enfoque com a maior urgência.

Os autores da proposta da Perimetral – Reinserção urbana, Pedro Toledo, Sérgio Fontes e Vítor Damasceno, fizeram uma brilhante apresentação (ver http://novaperimetralrio.blogspot.com/).  Fruto de uma oficina realizada na disciplina Trabalho Integrado II, da FAU-UFRJ, coordenada pelos professores Cristóvão Duarte, Alexandre Pessoa, Guilherme Lassance e Ivete Farah, com a consultoria de Ricardo Esteves, trazem luz ao debate. A proposta foi levada à prefeitura, porém, não chegou aos tomadores de decisões. Parece que existe uma barreira para ouvir propostas que venham da Academia ou de outras fontes de pesquisa que possam inovar as proposições, ventilar os projetos com idéias inovadoras, que introduzam o novo paradigma (que já nem é tão novo) do transporte sustentável e limpo.

O debate final foi acalorado, muitas idéias surgiram para que haja de fato uma mobilização que leve o poder Público a tratar as grandes intervenções de forma participativa e transparente.

INVERDE teve uma presença que defendeu essas idéias e ações, que evitem que somas bilionárias seja gastas em obras que não trarão benfeitorias reais de longo prazo para os moradores da cidade.

O Prof. Duarte propôs a paralisação imediata das obras, para que se tenha tempo de planejar os enormes investimentos que serão feitos, e que serão debitados em nossa conta,  pagadores de impostos, para cobrir os compromissos que estão sendo  assumidos pela atual administração nesse momento. É URGENTE!!

Participe você também! Assine o Manifesto pela via sustentável.

Basta nome, email e identidade, escolha não revelar os dados, se preferir.

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/7454

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As Cidades e as Mudanças Climáticas

As cidades brasileiras também já estão sendo impactadas pelos efeitos das Mudanças Climáticas. Quando vai começar o movimento de adaptação para enfrentar os desafios que já enfrentamos?

Cidades do mundo estão “ficando prontas”. Vamos começar pelo Rio?
 aqui somos extremamente vulneráveis e as obras que já começaram levam isso em conta? com certeza participação e transparência que é fator fundamental para construir resiliência, não têm acontecido. A população tem o direito de saber dos riscos e participar das decisões que precisarão ser tomadas. Quanto antes, melhor! É preciso se planejar intervenções que irão adapatar a cidade e não apenas ter planos de emergência para socorrer as vítimas, quando já é tarde demais para evitar tragédias e perdas financeiras e de vidas.

Veja no link abaixo o movimento mundial de preparação para enfrentar os desafios da Mudanças Climáticas.

http://www.unisdr.org/english/campaigns/campaign2010-2011/

postado por Cecilia Herzog em 7.11.2010

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Como se não houvesse amanhã

O Rio perde uma oportunidade, talvez única de reverter o quadro de degradação ambiental e cultural, e dar novo rumo ao desenvolvimento da cidade. O caminho escolhido para a preparação da cidade para receber os grandes eventos nos próximos seis anos, perpetua o partido do crescimento a qualquer custo, do paradigma que orientou o século XX: a sociedade do consumo, dos veículos poluentes, do cinza, do concreto, das paisagens falsas e pasteurizadas.

A cidade possui um patrimônio ecológico inigualável para uma megalópole. E vai destruir quase tudo o que resta, em nome do crescimento econômico baseado no mercado imobiliário predador da biodiversidade, das águas e das paisagens – que se constituem no nosso grande patrimônio urbano. As áreas alagáveis das baixadas, os últimos fragmentos de manguezais, as encostas florestadas e os quintais estão sendo erradicados para sempre. Junto vão os serviços ecológicos prestados por esses sistemas naturais. Seremos uma cidade de concreto sob as águas: das inundações causadas pelas chuvas (cada vez mais intensas) e do mar (o nível está se elevando). Os impactos das mudanças climáticas estão apenas no começo. A situação da cidade é das mais preocupantes, visto que está assentada sobre um território frágil, suscetível a deslizamentos e enchentes, que tendem a piorar com a eliminação das áreas de acomodação das águas das chuvas, e a intensificação da impermeabilização do solo.

Quando os recursos financeiros jorram, os estragos podem ser incalculáveis. Falta visão holística, de conjunto, e de um planejamento sistêmico que seja rebatido no território, na paisagem, baseado em suas especificidades. Considerar a cultura local, e sua diversidade, é essencial para que não nos tornemos numa cidade “global” homogênea, “genérica” como tantas outras, sem identidade. Cidade composta de edifícios sem alma, sem contato com a realidade ambiental, social e cultural do lugar. Assistimos à eliminação iminente do que resta do patrimônio paisagístico e cultural, reconhecido mundialmente, e que certamente contribuiu para que fosse a cidade escolhida dessa década para tantos eventos internacionais.

O Rio de Janeiro poderia ser um modelo do novo paradigma da sociedade do bem estar, com a virada para uma economia verde, baseada no desenvolvimento de conhecimento realmente ecológico, sustentável. Atrairia empresas da nova economia, com estímulo a pesquisas de transporte sustentável e geração de energia limpa adequados à nossa realidade. Inúmeras cidades no mundo já partiram por esse caminho e colhem frutos, com economias que crescem oferecendo qualidade de vida a seus moradores, atraindo visitantes para ver como é viver bem, com crianças felizes em contato com a natureza na cidade.

As decisões que definirão o futuro da cidade estão sendo tomadas a portas fechadas. Transparência e participação, como rege o Estatuto das Cidades, não fazem parte do processo. Conhecimento não falta, além do corpo técnico Municipal, a Academia e as ONG’s estão presentes e poderiam dar contribuições de grande valia. O Plano Diretor para a cidade do Rio de Janeiro, que será votado nos próximos dias, reflete essa situação. Plano esse que já tem até apelido: Frank – de Frankenstein – ou seja, um conjunto de remendos que irão legitimar as ações predatórias que impactarão no futuro imediato, e distante da cidade. O mesmo ocorre nas escalas estadual e nacional: drenam nossos recursos naturais não renováveis como se não houvesse amanhã.

Cecilia Polacow Herzog – Paisagista urbana ecológica

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RIO: A CIDADE SEM LEI

Este não é o título de um filme de faroeste, estamos falando sim da cidade “Maravilhosa”. 

Em 2003 uma série de reportagens de um Jornal Carioca já falava sobre o “Rio sem lei”. Hoje a situação permanece.

Não é que a cidade do Rio não tenha leis, as leis que aí estão e as que estão em votação não servem à População!

São Projetos de Lei que aumentam a poluição visual, permitem construir em áreas de preservação, aumentam a densidade construtiva sem a menor adequação da infraestrutura, sem prever a sua saturação e, muito menos, as mudanças climáticas que ocorrerão.

O resultado são ruas abarrotadas de carros, presos em quilométricos engarrafamentos e confusão mental, visual e emocional dos usuários da cidade, cada vez mais estressados e presos nestas armadilhas urbanas. Em tempos de chuva, as ruas transformam-se em rios, os morros em cachoeiras de lama a soterrar pobres e ricos.

Cachoeiras de Lama em abril de 2010. Foto Alex Herzog.

Mas será que é esta cidade que pretende abrigar jogos da Copa do Mundo e as Olimpíadas? Que pretende trazer milhares de turistas para viver este caos urbano? Onde se misturam diversos tipos de foras da lei e os enquadrados em bizarras leis?

Muitas das leis existentes são colchas de retalhos que para entender o que querem dizer é preciso anos de estudo e pesquisa, e mesmo assim, fica-se sem saber o que as entrelinhas podem conter.

Até que ponto o povo irá suportar subordinadamente as vontades e os descasos com o patrimônio maior: a vida, o meio ambiente natural e urbano?

É lamentável que muitas denúncias sejam feitas e que nada aconteça.

Quando será que isto vai mudar?

O que precisamos fazer para mudar este estado de coisas?

Cada um precisa fazer a sua parte!

Participe!

Dê a sua contribuição para transformar o Rio na Cidade que você quer, para que ela torne-se ainda mais Maravilhosa!

Em 24 de agosto de 2010.

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DESCONEXÃO HORIZONTAL E VERTICAL

Nessa segunda década do século XXI o tema é conexão. Conexão das pessoas entre si, com a natureza, com a sua cultura, com a sua paisagem e sua cidade. Conexão entre fragmentos de florestas para conservar a biodiversidade. A conexão não é só virtual, o movimento é para que seja real. Aconteça em espaços urbanos vivos, verdes, arborizados, belos e saudáveis com ar limpo.

No entanto, aqui no Rio de Janeiro os tomadores de decisão estão desconectados horizontalmente do movimento de grande parte das cidades do planeta, que busca se conectar com suas bases naturais (geobiofísicas) e sociais (seus moradores). E verticalmente: desconectados do suporte do qual a cidade e seus habitantes dependem para viver: geológico, hidrológico e biológico. 

A cada dia fica mais evidente essa desconexão total. É só ler os jornais. Para que ouvir técnicos da própria prefeitura? Para que ouvir os cientistas que pesquisam nossos morros e rios? Para que ouvir a população? Audiências públicas transparentes e participativas atrapalham os planos do governo. Alguns têm essa mania de questionar, de perguntar por que, quem vai se beneficiar com isso, quais as consequências futuras, que cidade vamos deixar para nossos netos e bisnetos. Como será a temperatura da cidade com menos florestas ainda? Qual a estabilidade dessas casas que serão construídas nas encostas? E nas baixadas alagáveis? Quais as perdas que virão?

Cidades antenadas com o presente e de olho no futuro discutem, pesquisam, implantam novas soluções para ver o que vai dar certo, de modo a se adaptar e amenizar as conseqüências causadas pelas mudanças climáticas. Aqui, nossos administradores pensam em como ocupar mais. Em tempos de cidades compactas sustentáveis, pensam e promovem a expansão urbana (agora de forma ordenada, formal – sob a orientação do Plano Diretor).

Subida do nível do mar? Não aqui. Vamos liberar as baixadas alagadas e áreas alagáveis para o mercado imobiliário nas Vargens. Vamos abrir um túnel sob o Parque Estadual da Pedra Branca que sai sobre o manguezal protegido pela Reserva Arqueológica e Biológica de Guaratiba. A estrada será duplicada sobre esse ecossistema que é um patrimônio natural que deveria ser preservado a todo custo, não apenas para as próximas gerações, mas para essa mesmo. O manguezal presta serviços ecológicos insubstituíveis. Quando irão acontecer as audiências públicas? Quem vai fazer um Estudo de Impacto Ambiental condizente com o último reduto desse ecossistema tão precioso? O que foi feito é raso, estava arquivado na biblioteca da antiga Feema, para quem quiser dar uma olhada. Alguém foi lá na área ver as conseqüências da chuva de abril? Deveriam ir conversar com os moradores mais antigos, iriam pensar melhor em liberar a área para mais loteamentos.

Não tenham dúvidas novas tragédias virão. Quem vai assinar os atestados dos óbitos que certamente irão ocorrer serão os tomadores de decisão de hoje. Vamos fazer um esforço de memória e anotar os nomes dos responsáveis por esses novos assaltos aos nossos ecossistemas que prestam serviços ecológicos vitais e insubstituíveis. Perguntem ao prefeito de Durban o que está fazendo pela sua cidade. Ou ao da cidade do México, ou de várias outras que compõem o Conselho Mundial de Prefeitos para as Mudanças Climáticas. Eles estão administrando suas cidades com responsabilidade em busca de soluções para problemas que já está acontecendo e que seguramente só irão se agravar.

CECILIA POLACOW HERZOG

em 25.06.2010

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Em outro planeta

Depois de passar um mês viajando pelo mundo em pesquisa sobre melhores possibilidades para a vida nas cidades chego ao Brasil e, em menos de uma semana tenho a impressão de ter desembarcado não em outro país, mas em outro planeta.

No Japão fui a uma conferência científica sobre biodiversidade urbana e projeto – Urbio 2010, ano internacional da biodiversidade.  Nessa conferência foram discutidos e apresentados trabalhos sobre mitigação e adaptação para enfrentar as mudanças climáticas e melhorar os ecossistemas urbanos. Ficou evidente que a sustentabilidade das cidades depende da inclusão dos ecossistemas na pauta do planejamento e projeto das cidades. O evento terminou com a “Declaração de Nagoya – URBIO 2010” a ser apresentada na COP10 em outubro. O tema central foi “Biodiversidade Urbana na Rede Ecológica” do planeta.

A seguir fui a Bonn, na Alemanha, para o primeiro congresso das Cidades e a Adaptação às Mudanças Climáticas – Resilient Cities 2010, promovido pelo ICLEI, organização internacional de governos locais pela sustentabilidade. Paralelamente a esse evento houve o Fórum de Prefeitos para a Adaptação, que reuniu administradores de cidades de todos os continentes que buscam trocar experiências de como adaptar suas cidades para enfrentar os impactos que já estão acontecendo devido às mudanças climáticas. O produto desse fórum foi uma declaração a ser levada para a COP 16 no México, no final do ano. No Congresso aconteceram sessões paralelas sobre diversos temas. Muitas cidades apresentaram como estão se preparando para os impactos causados pelas alterações climáticas e a elevação do nível do mar. A questão da inclusão dos serviços prestados pelos ecossistemas em áreas urbanas permeou grande parte do evento. A tônica foi dada pela busca de projetos holísticos, com equipes inter e transdisciplinares, onde a interação entre os diversos campos do conhecimento levam a soluções sustentáveis. A transparência e a participação dos moradores foram enfatizadas nos dois eventos.

Já no Rio de Janeiro, as matérias da semana sobre o novo Plano Diretor da cidade e as alterações no Código Florestal me deram um choque de realidade. Parece que aqui não vai acontecer nada do que está já acontecendo no resto do planeta. A discussão é como construir mais à beira-mar. Além do PEU (Plano de Estruturação Urbano) Vargens que permite a construção em áreas alagáveis da baixada de Jacarepaguá, e da abertura do túnel da Grota Funda com a duplicação da estrada sobre o manguezal protegido pela Reserva Biológica em áreas sujeitas a inundação e deslizamentos. Provavelmente o país já detém uma tecnologia exclusiva para conter a elevação do nível do mar em nossa costa. Parece que essa mania de proteger Áreas de Preservação Permanente, como matas ciliares, encostas íngremes e topos de morro, é que atrapalha o nosso desenvolvimento. É muito melhor abrir estradas, incentivar vender mais e mais carros, expandir a fronteira agrícola e o desmatamento sobre os ecossistemas e aqüíferos para dar lugar a mais desenvolvimento econômico a qualquer custo.

A visão de curto prazo de nossos administradores públicos e legisladores já nos colocam problemas da maior gravidade, como a péssima qualidade de vida, a poluição generalizada das águas, do ar e do solo, doenças decorrentes de vida sedentária e contaminação, a perda de biodiversidade e ecossistemas que contenham encostas e evitem enchentes, só para citar alguns. Os resultados dessa miopia podem ser medidos por diversos indicadores e manchetes de jornais.

Até quando nós brasileiros iremos ficar satisfeitos só por ter um carro novo? Está na hora de pensarmos que a sociedade de consumo individualista pode se transformar na sociedade do bem-estar, onde melhor do que possuir bens é ter uma vida saudável e em comunidade, com cultura e em contato com a natureza. Vale ressaltar que no Brasil também somos parte da natureza e dependemos dela.

Cecilia Herzog

em 17.06.2010

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Reflexões sobre as chuvas e o futuro do Rio

Por Cecilia P. Herzog, paisagista ecológica, mestre em Urbanismo e diretora da ONG Inverde – Infraestrutura Verde e Sustentabilidade Urbana.

É hora de refletir sobre se precisamos mesmo, expandir os limites das áreas urbanizadas da cidade sobre importantes regiões ambientalmente frágeis, e que desempenham funções essenciais para a sua sustentabilidade. Ao longo do século XX houve uma orientação de ganhar terras para construção que não contemplaram as condições do suporte geobiofísico, isto é do desempenho ecológico essencial de encostas florestadas, baixadas alagadiças e manguezais. Ao andar pela cidade ontem pude ver os resultados dessa urbanização. Deslizamentos em encostas ocupadas e desmatadas. Áreas aterradas intransitáveis, pois elas eram as bacias naturais de acomodação de águas em tempos de cheias. Águas do mar invadiram as praias, que perdem areia constantemente.

As restingas e os manguezais, que desempenham funções essenciais para a proteção de linha de costa e além de ter uma grande biodivesidade, foram suprimidos para dar lugar a avenidas e mais áreas urbanizadas. Não se pensou em adensar, manter o centro da cidade vivo.  As cidades mais sustentáveis e ativas econômica, cultural e socialmente mantiveram suas centralidades, ou estão hoje investindo em sua renovação. Não faltam exemplos pelo mundo, até Seul que é maior do que São Paulo, hoje tem investido em soluções “verdes”, com a renaturalização de rios e aposta em transporte alternativo maciço. Aliás a Coréia saiu na frente e será o primeiro “país verde”. Para não falar em países europeus que têm realidades muito distintas das nossas.

Estamos na segunda década século XXI e a mentalidade expansionista continua. Os casos das Vargens e de Ilha de Guaratiba, na zona oeste, deveriam ser levados muito a sério pelas autoridades. São áreas que possuem condições ecológicas que devem ser conservadas com uma ocupação apropriada: análise detalhada das condições geobiofísicas e levantamento dos usos adequados, para evitar cometer os mesmos erros de passado recente. Existem diversas possibilidades de desenvolvimento que não seja apenas através do parcelamento inadequado do solo. Cidades saudáveis precisam de áreas naturais, de produção e comercialização local de alimentos, de florestas urbanas (incluindo intensa arborização de ruas, praças e parques com espécies nativas), de recreação e lazer saudável. O retorno econômico pode vir de várias maneiras, no caso do Rio o turismo ecológico poderia ser um dos mais importantes do mundo.

A resiliência das cidades frente às mudanças climáticas e ao fim previsível do petróleo em poucas décadas, tem levado a inúmeras publicações que propõem alternativas que deveriam estar sendo ventiladas mais abertamente no país. Em maio acontecerá em Bonn, na Alemanha o primeiro congresso “Resilient Cities”, organizado pelo ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade. Governantes locais, pesquisadores, técnicos e representantes de ONG’s estarão lá. O objetivo é discutir como as cidades podem contribuir para minimizar as emissões de gases, além de como se preparar para enfrentar os desafios que já estão sendo impostos pelas alterações climáticas. Irei apresentar uma proposta de infraestrutura verde para adaptar de uma bacia hidrográfica urbana. Apresentarei, no mesmo mês, um plano de infraestrutura verde para Guaratiba na “Conferência de Biodiversidade Urbana e Projeto”, URBIO2010, em Nagoya no Japão. A sustentabilidade da cidade deve ser planejada e implementada o quanto antes. Para isso, seria importante que as autoridades locais abrissem oportunidades para que propostas como essas fossem avaliadas pela sociedade e que houvesse transparência no planejamento do Rio que queremos.

Sites dos eventos:

1º Congresso Mundial sobre Cidades e Adaptação para as Mudanças Climáticas

URBIO 2010 – Biodiversidade Urbana e Projeto

Clipping – O Globo – Razão Social nº 93 – 20 de Abril de 2010

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Infraestrutura verde e chuvas “atípicas”

Por Cecilia P. Herzog, paisagista ecológica, mestre em Urbanismo e diretora da ONG Inverde – Infraestrutura Verde e Sustentabilidade Urbana.

As chuvas que paralisaram o Rio de Janeiro nessa terça-feira não se constituem num evento atípico. Pelo contrário, elas são normais em clima tropical, e principalmente impactantes devido à localização geográfica da cidade.

As ocorrências podem não ser cotidianas, mas existem publicações que relatam inúmeros eventos climáticos de grande impacto ao longo dos anos.

A paisagem do Rio de Janeiro é quase única: a cidade é concentrada entre os maciços e o mar. A urbanização alterou completamente a dinâmica das águas, devido à canalização de rios e córregos, desmatamento das encostas e aterro de áreas alagáveis nas baixadas, com a quase total impermeabilização do solo. As enchentes são habituais mesmo com chuvas “típicas” que ocorrem nos meses de verão. De fato, em eventos extremos combinados com a maré alta é quase impossível evitar danos. As mudanças climáticas já estão agravando esse quadro, com chuvas cada vez mais fortes e freqüentes.

Essa é uma ótima oportunidade para discutir novas alternativas de tratar áreas já urbanizadas, além de revisar como se deve planejar a ocupação de novos locais. É fundamental contemplar os processos e fluxos naturais que ocorrem na paisagem urbana. Por exemplo, a proposta de ocupação de áreas úmidas na Baixada de Jacarepaguá trará problemas ainda maiores, pois elas desempenham funções essenciais para a sustentabilidade da cidade, como detenção e retenção das águas, conservação da biodiversidade, manutenção da qualidade das águas, regulação do clima, entre outras.

Em áreas urbanizadas é necessário buscar soluções que mimetizem os processos naturais. Na última década, a infraestrutura verde tem se firmado como um novo paradigma para planejar e adaptar as cidades para que se tornem sustentáveis no longo prazo. A infraestrutura verde tem sido pesquisada e implantada em regiões, cidades e localidades em inúmeros países. Visa mitigar, amenizar e adaptar cidades, com resultados positivos que já podem ser medidos. Essa infraestrutura verde se constitui numa rede interconectada de espaços abertos vegetados (de preferência arborizados) que restabelece a estrutura da paisagem. Áreas como parques e praças são interligados por ruas verdes e rios e canais renaturalizados. A ideia é que a cidade funcione como uma esponja verde, que seja o mais permeável possível. Existem inúmeras possibilidades de adaptar a infraestrutura cinza existente com a criação de ruas verdes multifuncionais, jardins-de-chuva de todos os tamanhos, tetos verdes, pisos permeáveis, muros verdes, biovaletas, estacionamentos drenantes, asfalto permeável, para citar apenas algumas. Um dos benefícios que tem relação direta com os acontecimentos dessa terça-feira é o aumento da infiltração das águas no local, o que diminui o escoamento superficial que vai sobrecarregar o sistema de águas pluviais. Tem mais uma vantagem que é filtrar as impurezas e poluição depositadas sobre telhados, pisos e ruas que são carreadas nos primeiros de dez minutos de chuvas (em geral tão poluídas como esgoto).

A infraestrutura verde é multifuncional e oferece inúmeros benefícios além dos citados acima, como: melhoria do clima urbano; amenização das ilhas de calor; incremento no transporte alternativo devido ao sombreamento de ciclovias e calçadas; melhoria da qualidade das águas, do ar e do solo; captura de gases de efeito estufa; aumento da biodiversidade urbana; mais espaços para recreação e lazer, além de proporcionar ambientes mais saudáveis, com menos estresse. Esses benefícios refletem no desenvolvimento social e econômico das cidades. Devido à melhoria da qualidade de vida, passam a atrair empresas que contam com funcionários mais exigentes em busca melhor qualidade de vida.

Na Europa, Ásia e América do Norte existe uma competição saudável entre as cidades para ser a mais “verde”. Para isso, são tratadas como ecossistemas urbanos que visam tornar os fluxos lineares em circulares: menos entradas e saídas de insumos, energia e resíduos. Procuram ser mais compactas e autosustentáveis. Visam a redução do consumo de energia e substituição para fontes renováveis; a eliminação do uso de combustíveis fósseis com a restrição ao uso de automóveis; o incremento dos transportes públicos com emissão de carbono zero; o estímulo ao uso de bicicletas e caminhadas; a construção de edifícios com eficiência energética; a minimização de geração de resíduos sólidos e líquidos e seu aproveitamento de diversas formas, e também dão ênfase na produção local de alimentos. A implantação de infraestrutura verde dá suporte para que tudo aconteça de forma ambientalmente sustentável.

O Rio de Janeiro tem pela frente um desafio que é transformar a cidade maravilhosa (hoje poluída e deteriorada) numa “Cidade Verde Maravilhosa”. Agora é a hora de fazer essa escolha. Que Rio queremos? Eventos de porte começam já no ano que vem, com os Jogos Mundiais Militares. Em 2012, irá sediar a Cúpula Mundial do Clima – Rio+20, que trará chefes de Estado de todo o planeta e colocará à prova a atuação da cidade nessa área. Em 2014 e 2016, acontecerão os grandes eventos esportivos: Copa do Mundo e Olimpíadas.

A incorporação da infraestrutura verde nos planos e projetos se apresenta como uma maneira de pensar o Rio de Janeiro num prazo mais longo, isso trará benefícios ambientais, sociais e econômicos. Eventos climáticos como o que ocorreram no começo de abril poderão ser amenizados e até mesmo evitados. A tecnologia hoje disponível possibilita prever, mitigar, e adaptar a cidade para que se torne resiliente aos impactos causados pelo aquecimento global. Cada evento como o que ocorreu agora, causa prejuízos sociais e ambientais irrecuperáveis. Os impactos econômicos devem ser levantados para que se possa de fato avaliar quanto custa manter as soluções tradicionais para os problemas recorrentes versus a busca por soluções inovadoras. A cidade poderá se tornar referência na América do Sul, juntamente com cidades como Curitiba e Bogotá.

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Março: mês intenso de debates sobre a sustentabilidade futura da Cidade Maravilhosa  

Por Cecilia P. Herzog, paisagista ecológica, mestre em Urbanismo e diretora da ONG Inverde – Infraestrutura Verde e Sustentabilidade Urbana.

O mês de março foi muito rico em discussões sobre que caminhos devemos tomar agora, para que o futuro da cidade do Rio de Janeiro ofereça melhor qualidade de vida para todos os seus habitantes, em todos os aspectos: sociais, ambientais e econômicos.

Foi quase uma maratona, mas consegui acompanhar diversos acontecimentos que ocorreram na cidade. As oportunidades para o desenvolvimento sustentável do Rio são muitas devido aos eventos de porte que irão ocorrer na cidade. Não se restringem à Copa e às Olimpíadas, que já não seria pouco. Teremos também entre 17 e 24 de junho de 2011, a quinta edição dos Jogos Mundiais Militares, também denominados Jogos da Paz. No ano seguinte acontecerá a Rio+20 – A Cúpula da Terra (Earth Summit) que reunirá chefes de Estado de todo o planeta. Esses dois eventos também trarão milhares de visitantes para a cá.

Logo no começo do mês, no dia 2, aconteceu o Pacto Carioca que reuniu durante o dia todo, diversos atores para discutir o Plano Diretor que está em tramitação na Câmara de Vereadores da Cidade. O tema do evento foi “Qual o Rio que queremos para 2020?”. A vereadora Aspásia Camargo organizou e coordenou o evento. Foram apresentados os resultados de oficinas realizadas na Fundação Getúlio Vargas, com a participação de outras instituições. A discussão sobre o esvaziamento econômico da cidade, e temas sociais e principalmente aspectos ambientais foi intensa, uma vez que têm sido negligenciados sistematicamente e que levaram à degradação da paisagem da Cidade Maravilhosa e aos problemas sociais atuais.

 

FOTO  1 – Pacto Carioca. Sérgio Besserman faz apresentação.

Houve um consenso que temos uma oportunidade histórica de mitigar e amenizar os impactos que ocorreram.  A cidade sofre hoje de poluição generalizada do ar, das águas e do solo, baixa qualidade de vida devido à falta de saneamento, ineficiência dos transportes de massa, falta de planejamento habitacional, entre outros. Essas condições poderão ser revertidas com os aportes de recursos que virão devido aos eventos dos próximos 6 anos. Podemos buscar a recuperação do capital perdido nos últimos 50 anos, desde a mudança da capital federal para Brasília. O foco deve ser na educação, que é a base para o desenvolvimento sustentável e a melhoria do meio ambiente urbano. O nosso maior ativo são nossos recursos naturais e humanos, que têm sido ignorados. É também uma grande oportunidade para planejar o fim da cidade partida, das desigualdades sociais. Uma mudança de atitude por parte do Poder Público poderá trazer benefícios de longo prazo, com reflexos nas áreas ambientais, sociais e econômicas.

No dia 12 Sérgio Magalhães, presidente do IAB –RJ, fez uma palestra no Conselho de Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro , com o tema “As Olimpíadas de 2016 – Desafios Urbanísticos e Ambientais”. Sua apresentação foi muito instigante. Os empresários ficaram mobilizados pelos seus argumentos de como aproveitar o potencial de um evento do porte das Olimpíadas para reverter o quadro social, ambiental e econômico em que a cidade se encontra. Para isso, Magalhães argumentou que as instalações e investimentos devem se concentrar na área portuária, cuja abrangência é toda a zona norte e baixada, chegando até o outro lado da Baía de Guanabara, em Niterói e São Gonçalo. Defendeu também que concentrar a maioria das atividades na Barra será um erro estratégico que irá beneficiar poucos por pouco tempo.

Essa palestra para mim foi quase uma preparatória para o seminário “A Olimpíada e a Cidade – Conexão Rio-Barcelona”. Foi organizado pelo IAB-RJ, a Prefeitura do Rio de Janeiro e o PROURB. Foram convidados diversos representantes de Barcelona, que é a cidade escolhida como modelo inspirador para o planejamento e projeto dos jogos aqui no Rio. O primeiro dia foi no palácio da Cidade. Ficou lotado praticamente o dia todo. O segundo foi mais técnico, realizado na sede do IAB-RJ. Depois de todas as apresentações e debates, para mim ficou claro que os planos para as Olimpíadas devem ser revistos, e como Jordi Borja – urbanista que colaborou intensamente na retomada de Barcelona com os Jogos Olímpicos –, disse enfaticamente não se pode pensar só nos jogos, há que se planejar o legado que será deixado para a cidade.

 

FOTO  2 – As Olimpíadas e a Cidade – Vista geral do primeiro dia no Palácio da Cidade

É uma oportunidade que não pode ser desperdiçada, nem mal aproveitada. Ela pode mudar os rumos da cidade para que possa entrar num círculo virtuoso de desenvolvimento com melhorias reais sociais, ambientais, culturais e econômicas em prazo muito mais longo do que o horizonte de 2016. Temos pouco tempo para refazer os projetos, e como foi feito em Barcelona mudar o que foi acordado, pois não é um plano que não pode ser alterado. Lá foram feitas inúmeras mudanças para melhor, depois de ser escolhida como sede dos jogos de 1992. O legado foi um ponto de partido para os novos projetos que dão sequência ao desenvolvimento. Eles têm sido implementados e outros vão se incorporando, pois o processo é dinâmico e precisa se adequar aos acontecimentos.

 

FOTO  3 – As Olimpíadas e a Cidade – 2o. dia. Da esquerda para a direita: Jordi Borja, Sérgio Magalhães, Sérgio Dias e Pablo Benetti.

Na semana do dia 22 a 26, aconteceu o Fórum Urbano Mundial, que já teve um artigo publicado aqui em nosso site. Na sexta-feira, dia 26, foi a vez do “1º. Colóquio sobre Mudanças Climáticas, Jogos e Sustentabilidade do Rio de Janeiro”, organizado pelo ICLEI – Governos Locais pela Sustentabilidade. Foi realizado no Tribunal de Contas do Município. Reuniu pessoas importantes em diversas áreas. Na parte da manhã foi feito um balanço dos resultados da COP-15, com a participação de diversos técnicos e políticos que dele participaram.  

O tema da tarde foi “Jogos Verdes, Cidades Vencedoras”. Monika Zimmermann, diretora do ICLEI, frisou que acontecimentos de porte podem causar enormes danos ambientais e sociais e deixar um ônus para os residentes locais. Fez uma apresentação de exemplos de grandes eventos “verdes” em diversos países, que foram planejados e executados de forma sustentável, que deveriam ser modelos para os nossos. Esses acontecimentos causam danos sociais e ambientais severos que devem ser previstos e evitados. É uma oportunidade para educar os frequentadores sobre as questões ambientais que estão ocorrendo e como podemos fazer para diminuir ao máximo e mitigar as emissões de gases de efeito estufa, otimizar os recursos e minimizar os desperdícios. Deve ser feita a contabilização da pegada ecológica que o evento irá causar e a partir daí procurar sua minimização.

 

FOTO  4 – 1o. Colóquio ICLEI – As Mudanças Climáticas, os Jogos e a Cidade

Mais um assunto mobilizou os cariocas em março, foi a mortandade de peixes que ocorreu na Lagoa na última semana de fevereiro. Com isso, houve a oportunidade de discutir o que está sendo realizado para que suas condições ambientais melhorem, além de buscar a transparência dos projetos futuros que estão em fase de licenciamento.

No dia 09 de março, o deputado André Lazaroni promoveu uma audiência pública na Alerj, com o tema “Medidas de Recuperação da Lagoa Rodrigo de Freitas”. Durante toda a amanhã reuniu técnicos e responsáveis por instituições ligadas à Lagoa. Os debates foram interessantes e muitas vezes acalorados. Houve um consenso no que se refere ao projeto de ligação da Lagoa com o mar, que será feito em colaboração com a EBX.

 

FOTO  5 – Audiência Pública – Medidas de Recuperação da Lagoa Rodrigo de Freitas

A Inverde promoveu na mesma semana, no dia 11 uma mesa redonda com diversos representantes de instituições e técnicos, com o tema “Mortandade de peixes na Lagoa: problemas e possíveis soluções”. Um resumo desse evento está em nosso site.

Muitos questionamentos foram feitos e aguardamos que esse processo seja mais transparente não apenas para os órgãos públicos, mas também para a sociedade civil organizada. Acreditamos que se deve buscar uma solução sustentável de longo prazo que devolva a qualidade das águas salobras, mantenha e melhore a biodiversidade aquática e da avi-fauna, além de contemplar os efeitos das mudanças climáticas. Para isso, é preciso considerar diversas possibilidades.

Uma sugestão é olhar e procurar aprender com o que tem sido feito em países como a Holanda que tem convivido com sérios problemas por sua situação geográfica. Atualmente, em vez de tentar dominar as forças naturais, busca soluções de convivência com o mar e adequação através de projetos que simulam as formações naturais como bancos de areia e manguezais, deixando que a água entre com a reconstituição das áreas alagáveis. A estratégia é tirar partido dos potenciais locais e buscar alternativas sustentáveis no longo prazo. Essas técnicas são conhecidas como soft coastal engineering.

Tenho pesquisado e participado de diversos eventos dentro e fora do Brasil em busca do que pode ser feito para contribuir para as discussões que tragam reais melhorias para a cidade. Convidamos Sérgio Magalhães para vir fazer a palestra sobre as Olimpíadas e a Cidade. Assim que tivermos sua confirmação enviaremos o convite para todos.

Site do evento “A Olimpíada e a Cidade”: http://www.iabrj.org.br/201003/a-olimpiada-e-a-cidade-%E2%80%93-conexao-rio-barcelona/  

Vídeos e site sobre o 10º. Colóquio sobre Mudanças Climáticas – ICLEI:

http://www.google.com.br/search?q=coloquio+tcm+iclei&hl=en&rls=com.microsoft:en-US:IE-SearchBox&rlz=1I7SNNT_pt-BR___BR354&tbs=vid:1&tbo=u&ei=IUO3S_XPJ4WvuAe6w5GqBg&sa=X&oi=video_result_group&ct=title&resnum=4&ved=0CCIQqwQwAw

http://redeci.ning.com/events/i-coloquio-sobre-mudancas

9 Responses to Opinião Inverde

  1. Maria Heloiza O. Freitas disse:

    Olá Cecília. O seu seminário na Defesa Civil sobre “Mudanças Climáticas” será o ponto de partida para a minha tese. Realmente a visão fundamental desse processo de preparação para as comunidades para a redução de riscos de desastres… me oportuna fazer a ligação desta prática com a escola, assunto que estarei desenvolvendo nos próximos 2 anos. Com certeza seus artigos estarão nas referências do meu trabalho científico. Será possível que você selecione e envie-me artigos, e outros materiais referente o tema acima? Lhe admiro. Parabéns!

    • Cecilia Herzog disse:

      Olá Maria Heloiza,
      Fico feliz em ter provacado questões para você desenvolver sua tese. TEmos uma aba no site com referências bilbiográficas recomendadas. preciso de mais informãções sobre o que pretende para poder recomendar mais.
      mande seu telefone, que assim que der te ligo. Estou fora da cidade até semana que vem.
      abraços ecológicos,
      Cecilia

  2. Quero aqui agradecer a Presidente do INVERDE pela palestra fantastica que fizestes aqui em Manaus, foi simplestemente dinamica, descontraida e a mim fez acreditar que ainda é possivel vivermos em harmonia com o meio ambiente. Cecília Herzog muitíssimo obrigada e espero ter a honrra de assistir mais palestras sua!
    Sou Formando do Curso de Técnologo em Gestão Ambiental da Instituição Uniasselvi.
    Clara oliveira
    Manaus – Am.

    • Cecilia Herzog disse:

      Olá Clarinha,

      Fico muito feliz que a palestra tenha te motivado. Na verdade, é esse meu objetivo, pois creio que só com conhecimento interdisciplinar e com o envolvimento de pessoas que fazem é que poderemos realizar a grande mudança para um novo paradigma de colaboração, em vez de competição. Cada um é responsável por contribuir um pouco, dentro de suas possibilidades. Espero que você também possa contribuir para construir cidades melhores. Pode contar comigo, se precisar.

      Abraços ecológicos,
      Cecilia

  3. Prezada Cecilia,
    Atualmente estou ocupando o cargo de superintendente da Agenda 21 do Estado do Rio de Janeiro.
    O Programa Estadual da Agenda 21 conseguiu avanços importantes em 50 municípios do Estado – organizando foruns permanentes de Agenda 21 Local e intergrando-os ao sistema de gestão local.
    Acontece que no Município do Rio de Janeiro parece impossível avançar nos debates e na organização social pela sustentabilidade e a prefeitura não quer discutir a questão. Não quer discutir uma agenda para o século XXI. Lembro que em 2012 estaremos recebendo a CUPULA DA TERRA 20 anos depois da RIO 92 e me parece que este evento não interessa a grande midia e ao poder público local RJ.
    Preciso muito conversar com você e toda esta equipe maravilhosa da INVERDE para construirmos estratégias para a RIO+20.
    A ONU ja iniciou os debates e estão sendo organizando comitê organizador sem nenhuma transparência e participação social. Sem chamar os atores sociais interessados no debate sistêmico e com profundidade.
    Será que poderíamos no reunir ?
    Meu e-mail é calico@ambiente.rj.gov.br.
    Um abraço grande em todos.
    Calico
    Superintendente da Agenda 21 do Estado do Rio de Janeiro

    • ceciliaherzog disse:

      Claro que podemos conversar, Calico. Quando você quiser.
      Acreditamos que sem transparência e participação efetiva os projetos e ações não se sustentam. Não se pode em pleno século XXI definir o que a sociedade quer a portas fechadas!
      A Inverde tem esse objetivo, de trazer para a cena a discussão, o debate através de educação e conscientização para que a participação venha a ser produtiva e leve a planos e projetos sustentáveis e resilientes no longo prazo
      Abraços,
      Cecilia

  4. Paulo Henrique Vaz disse:

    Oi Cecília,

    O meu email é paulohenriquevaz@ig.com.br.

    Um Abraço,
    Paulo

  5. Paulo Henrique Vaz disse:

    Cecília,
    Confesso que fiquei surpreso com seu artigo uma vez que observo um silêncio em relação aos problemas que estão se estabelecendo, mais acentuadamente nas últimas três décadas, nas mencionadas áreas, das Vargens, Ilha e Barra de Guaratiba. Sou proprietário de um sítio de 80.000m² nesta última, confino com a Fundação Roberto Burle Marx. Observo cotidianamente a degradação ambiental da região. Tendo em vista isto e com o propósito de colaborar com eventuais ações mitigadoras, estou deliberado a manter e desenvolver uma coleção de espécies de áreas alagadiças e brejosas; assim como manter uma biblioteca e alojamento para pesquisadores e estudantes que tenham suas pesquisas voltadas para a recuperação e preservação de áreas com estas características. Sendo assim gostaria de trocar idéias e conhecer melhor o trabalho de vocês.
    Paulo Henrique Vaz

    • ceciliaherzog disse:

      Olá Paulo,
      É muito bom saber que você está preocupado com o futuro (muito próximo) de Guaratiba. Na verdade fiz minha dissertação de mestrado sobre essa área, que é um reduto de biodiversidade com ecossistemas insubstituíveis para a cidade do Rio de Janeiro. Acho que temos mesmo que nos conectar para poder colaborar para o melhor cenário para essa área da cidade.
      Mande seu email para podermos nos comunicar.
      um abraço,
      Cecilia

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